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apresentação

Apresentação

Oferecemos esta publicação para traduzir o que o Instituto de Estudos Avançados da Unicamp (IdEA) faz: a busca constante da transdisciplinaridade e da liberdade do pensamento. Tal anseio é delineado pelos programas de residência, artística e científica, e dos grupos de estudos. A vinda de pensadores externos à Unicamp, através das residências, traz para o interior da Universidade discussões que possibilitam ampliar espaços e visões de mundo. Já os pensadores internos da Unicamp, por meio dos grupos de estudos, dissipam para fora dessa mesma Universidade o conhecimento genuíno do que nela é produzido e, portanto, contribuem para a reflexão sobre o papel da intelectualidade e de sua contribuição para a sociedade. Existe, portanto, a pulsação intra/inter cujo resultado é a fluidez do pensamento, assim como um pulmão que inspira e exala liberdade.

Mantém-se, nesta edição, a linha editorial adotada para o Entre IdEAs, a qual é a baseada na produção dos residentes e dos grupos de estudos, incluindo a contribuição do próprio Instituto. Nesta direção, oferecemos o artigo Os vários negacionismos da policrise planetária: incertezas e visões de túnel, da socióloga Sabrina Fernandes, cientista residente de março a maio de 2026. Dentro do espectro negacionista, Sabrina nos alerta que não podemos ficar calados e omissos diante da avalanche negacionista que nos assusta, em particular no período da Covid-19, no qual a autora identifica perpetradores na pandemia como aqueles que reforçaram políticas que impediram a proteção de pessoas ou aqueles que buscaram maximizar o lucro durante o período.

O texto que se segue ao de Sabrina, é do professor e escritor Oscar Nakasato, artista residente entre maio e julho de 2026. Em seu trabalho, O nikkei na literatura brasileira, Oscar nos presenteia com a visão de sermos brasileiros, devido à nossa pluralidade e identidade mestiça, não somente concebidas em  relações interétnicas, mas também resultado do entrelaçamento de culturas. De pronto, o autor nos questiona “Após mais de um século no país, quantos escritores nikkeis estão em atividade no país? Quantos personagens nikkeis povoam as páginas da literatura brasileira? Para as duas perguntas, a resposta é: poucos.” É necessário que se registre que Nakasato se configura em nome basilar na literatura brasileira enquanto referência na discussão do sujeito nipo-brasileiro, pois nos mostra a nossa face que, felizmente, não é única. O sentimento de pertencimento, na fala de Oscar, é um processo de difícil construção, que também depende da leitura que a sociedade faz desse indivíduo, que tem “cara” de japonês, tem nome de japonês, mas é brasileiro.

Se Oscar Nakasato aponta aspectos multifacetados do Brasil, Alexandre de Soares e Luciene Torino nos brindam com o artigo A antropofagia filosófica de Fausto Castilho.  Com o texto publicado originalmente em francês na revista Archives de Philosophie, Soares e Torino nos apresenta Castilho como um homem de estudos, como o próprio Fausto preferia ser conhecido. Todavia, Fausto Castilho pertence à coletividade de poetas, escritores, artistas, historiadores, sociólogos, críticos, economistas, antropólogos, geógrafos, filósofos, comportando um espírito interdisciplinar, com abertura às ciências, à literatura, e às outras artes, pois, para Castilho, o pensamento possui múltiplas expressões. Ao ler este artigo é possível identificar o Instituto de Estudos Avançados da Unicamp no Pensamento antropofágico de Fausto Castilho, escrito, aqui em itálico, para destacar que é o nome do grupo de estudos coordenado pelo prof. Alexandre Soares, da Universidade Federal de Uberlândia, ressaltando que a tradução do francês coube à Juliana Biason, responsável, no IdEA, por acompanhar os grupos de estudos.

Ora, se Alexandre e Luciene nos oferecem uma antropofagia faustiana, tal iguaria é compartilhada por Francisco Zmekhol, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Música da Unicamp, e coordenador associado do grupo de estudos Estudos do som e processos criativos/IdEA. Francisco aborda Ecologia sonora: escuta e conhecimento, decorrente de sua fala de abertura do encontro de mesmo nome, realizado em junho de 2026 no Instituto de Artes da Unicamp. Em seu texto, Zmekhol escarafuncha o sentido de ecologia enquanto irmandade tanto por uma relação de identidade quanto de diferença. E, aqui, o autor estabelece diálogo com os textos de Nakasto e de Soares e Torino, e nessa relação desponta a importância da escuta que, segundo o autor, implica transformar-se, deixar que ressoem em si a voz e o mundo do outro.

Rosana Onocko-Campos, coordenadora do grupo de estudos Saúde mental e violência: tessituras dissidentes capitaneia o denso artigo Saúde mental como gramática possível para a violência na contemporaneidade. Neste trabalho, depara-se com a saúde mental enquanto gramática para nomear o mal-estar contemporâneo nas cidades brasileiras. Os autores compreendem a violência como estruturante de nossa sociabilidade, de forma a retirá-la do escopo de ser uma anômala, atípica ou excepcional. Ao se abordar a questão da saúde mental como a gramática do mal-estar no contemporâneo, possibilita-se dissociar o mal-estar da resposta biopolítica, abrindo espaço para uma retomada micropolítica da recriação afetiva da sociabilidade.

Boa leitura.

Marco Aurélio Cremasco

Coordenador do IdEA – Unicamp

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