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O nikkei na literatura brasileira

Os nikkeis estão no Brasil há 118 anos. No dia 18 de junho de 1908, o navio Kasato Maru chegou ao porto de Santos trazendo os primeiros imigrantes japoneses. Após mais de um século no país, quantos escritores nikkeis estão em atividade no país? Quantos personagens nikkeis povoam as páginas da literatura brasileira? Para as duas perguntas, a resposta é: poucos. 

Esse fenômeno não se restringe à literatura. Estendendo a pergunta às artes audiovisuais, a resposta será a mesma. No cinema há uma diretora nikkei de destaque: Tizuka Yamazaki. Ela ganhou notoriedade com seu filme de estreia, Gaijin: os caminhos da liberdade, de 1980. Há atores e atrizes nikkeis, mas não os vemos em filmes e novelas. A falta de representatividade amarela nas produções audiovisuais é tema de reflexão em estudos acadêmicos, como na dissertação de Mestrado O ator amarelo: imaginário asiático-brasileiro em cena (Osiro, 2021). Além disso, já ocorreram episódios de yellowface [1] e whitewhashing [2]. O exemplo mais marcante é recente. Em 2016-2017, a rede Globo escalou a atriz Giovana Antonelli para protagonizar a novela Sol Nascente como Alice Tanaka. O autor Walther Negrão disse em entrevista que havia escrito a novela pensando na atriz nikkei Dani Suzuki para o papel. A história girava em torno de duas famílias de imigrantes, uma de japoneses e outra de italianos. Para interpretar o imigrante japonês Kazuo Tanaka, cogitou-se, inicialmente, o ator Ken Kaneko, entretanto o papel coube a Luis Melo, que foi caracterizado como mestiço. Para que Giovana Antonelli pudesse viver a neta de Kazuo Tanaka, o enredo foi adaptado: ela era uma filha adotiva.

Para compreender a situação da identidade nipo-brasileira na literatura, é importante ampliar a questão e verificar como se deu a formação da identidade nacional. Livros como O povo brasileiro (Darcy Ribeiro, 2006) e Casa-Grande & Senzala (Gilberto Freyre, 2003) abordam o problema. Entre os pesquisadores, é patente que as diásporas exerceram papel fundamental na construção da identidade nacional. 

O Brasil é um país que se constituiu como nação por meio da diversidade étnica. Além dos povos originários, três eixos diaspóricos participaram dessa constituição: 

– Diáspora europeia: resultado da colonização portuguesa e da chegada de imigrantes de outras nações, como italianos, alemães e poloneses, entre outros, que vieram em busca de uma condição econômica melhor que a de seus países de origem. 

– Diáspora africana: composta por pessoas que foram escravizadas para o trabalho na lavoura.

– Diáspora asiática: a mais tardia, constituída por japoneses, sírio-libaneses e outros povos, que vieram a partir do século XIX, mas, principalmente, no século XX, atraídos por promessas de prosperidade econômica. 

Essa multifacetada composição étnica se traduz, obviamente, em diversidade religiosa e cultural, criando novos modelos de ser e estar no mundo, bem como de pertencer (ou não pertencer) a um determinado espaço. O antropólogo Darcy Ribeiro chama de “povo novo” o povo brasileiro, resultado do processo histórico de mestiçagem biológica e cultural. Como ele se refere à gênese da formação desse “povo” novo, ele cita os indígenas, os negros e os europeus, não fazendo referência às etnias asiáticas, que chegaram depois.

Considerando que a formação de um povo é um processo dinâmico, uma abordagem atualizada deve inserir a contribuição das etnias asiáticas.  

A identidade de uma nação é plural e está sempre em movimento (Hall, 2006). Nesse contexto é importante considerar a participação de todos que aqui chegaram. Cada grupo acrescentou algo à composição da identidade nacional. Dessa forma a identidade nacional deve se constituir a partir do encontro dessas diásporas. 

Para entender essa identidade também é importante considerar o modo como a composição etnográfica ocorreu. Cada grupo participou de um modo bastante particular. Os povos originários foram perseguidos, destituídos de suas terras, suas crenças e costumes; os povos africanos vieram de forma involuntária, visto que foram escravizados, e permaneceram séculos sem os direitos mínimos para a manutenção da dignidade humana; os portugueses foram os colonizadores; os demais povos, como os japoneses, vieram de forma voluntária, em busca de prosperidade econômica. Não se pode considerar da mesma forma experiências tão desiguais na formação da identidade do povo brasileiro. 

A identidade nacional é uma “construção histórica” (Hall, 2006). Por isso, ser brasileiro no século XIX é diferente do que significa ser brasileiro hoje. As migrações ocorridas no correr desse intervalo de tempo contribuíram para esse novo “ser brasileiro” do século XXI. Como o Brasil foi constituído com a colaboração de vários povos, ser brasileiro é ser plural. A identidade nacional é mestiça, e isso não diz respeito somente às pessoas que foram concebidas em relações interétnicas, mas ao entrelaçamento de culturas. Nesse contexto um brasileiro que tenha absoluta ascendência japonesa pode ser mestiço, pois carrega, além da herança cultural japonesa, a herança cultural de outros povos que formaram o nosso país. Diariamente o Brasil se inventa nessa encruzilhada cultural, nessa formulação do presente com a memória do passado. 

Essa formulação, muitas vezes, não ocorre de forma orgânica, mas com atos de resistência, porque historicamente o país promoveu tentativas de apagamento étnico-cultural. Ainda hoje as religiões de matriz africana sofrem essas tentativas de apagamento. Na primeira metade do século passado, houve uma campanha de branqueamento da população brasileira, que tinha o negro como principal alvo, mas que atingiu, também, os japoneses. Autores como Koichi Kishimoto e Marcia Yumi Takeuchi tratam desse tema em seus livros. 

A literatura tem sido um espaço privilegiado para a expressão de histórias e reflexões a respeito de diásporas. Atualmente, no Brasil, há muitos escritores que se destacam escrevendo sobre diásporas, como Milton Hatoum, na diáspora árabe, e Ana Maria Magalhães, na diáspora africana. Em relação à diáspora japonesa, a sua presença na literatura e em outras áreas artísticas ainda é incipiente. 

Durante as primeiras décadas após a chegada dos primeiros imigrantes japoneses ao Brasil, produziu-se uma literatura em língua japonesa, principalmente na área da poesia. Havia associações de haicaístas. Como a aquisição da língua portuguesa foi um processo lento dentro da comunidade nipo-brasileira e, entre os imigrantes e seus filhos, o japonês era a língua-padrão, era natural que a literatura fosse produzida com essa característica. Os poemas e as narrativas serviam como ferramenta de preservação da identidade. Comumente destacavam a observação do cotidiano das famílias nikkeis, inicialmente nas fazendas de café e, depois, nas cidades. O primeiro poema de que se tem notícia é um haicai, que foi escrito ainda no navio Kasato Maru, em 1908, por Hyôkotsu, nome literário de Shuhei Uetsuka (Nishikido 2019, p. 73):

A nau imigrante 

Chegando: vê-se lá no alto 

A cascata seca 

Na literatura brasileira propriamente dita, o primeiro personagem nikkei é o mordomo Tanaka, de Amar, verbo intransitivo, de Mário de Andrade, publicado em 1927. Ele compõe, junto com a preceptora alemã Fräulein Elza, o painel da sociedade brasileira das primeiras décadas do século XX, que então passa a incorporar a figura do imigrante. Tanaka é um imigrante japonês que trabalha na casa de uma família da burguesia paulistana. Sua presença é discreta, silenciosa, e seu trabalho é disciplinado, o que caracteriza sua posição na casa, mas também atende a um determinado perfil do japonês. 

Quando Elza surge para trabalhar na casa, Tanaka se sente ameaçado, e os dois brigam pelo mesmo espaço. Não obstante a relação antagônica, eles se identificam como estrangeiros, pessoas que são vistas com desconfiança e são aceitos porque ocupam funções de subordinação, e isso acaba por criar um vínculo de irmandade. A situação de exílio e o fato de estarem sozinhos, sem família, acabam unindo Tanaka e Fraulein. 

No romance Brandão entre o mar e o amor (1942), escrito em coautoria por Jorge Amado, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Aníbal Machado e Rachel de Queiroz, Lúcia é uma mulher nikkei forte, com traços físicos e personalidade ambíguos.  

Personagens nikkeis ressurgem nos romances “Marco zero I: a revolução melancólica’ e ‘Marco zero II: chão”, de Oswald de Andrade, publicados, respectivamente, em 1943 e 1945. “Nos dois volumes, ele é visto com desconfiança, com hostilidade.” (Nakasato, 2009, p.41). É um reflexo de como os imigrantes japoneses eram percebidos nesse período pelo governo e pela sociedade.  

Nesses dois romances, os imigrantes surgem como participantes da realidade econômica e social do Brasil. Nesse contexto, os imigrantes e seus filhos são personagens rasos, estereotipados. São vistos como invasores, uma ameaça à soberania nacional, pois havia o receio do imperialismo japonês e seu plano expansionista. Nesse âmbito, destaca-se a devoção ao imperador, patente nestas palavras do personagem Muraoka: “A religião é como o chá. Tem verde, tem preto, mas Deus está sempre a serviço de S. Majestade o Imperador” (Andrade, 1991a, p.88)  

Em O amor é um pássaro vermelho (1983), Lucília Junqueira de Almeida Prado ainda aborda temas inerentes ao início da imigração japonesa no Brasil, como nacionalismo xenófobo, a impossibilidade do casamento interétnico, a autoridade masculina nas relações familiares, mas percebidos com um olhar de censura. Nessa obra os personagens são romantizados e ainda estereotipados.  

No conto O caixote (1984), de Luiz Vilela, observa-se um novo enfoque sobre os personagens nipo brasileiros. Dona Mikiko não aceita ser alvo de chacota de crianças em função de seu modo de falar e de suas características faciais e exige respeito. Aqui o ser humano se sobrepõe à etnia.

Em O mistério da prostituta japonesa (1986), de Valêncio Xavier, a personagem do título é de difícil acesso. O narrador, seu cliente, duvida de sua sinceridade e comenta que é difícil saber a sua idade pelo fato de ela ser oriental. Ela também é um enigma para o leitor, pois suas falas são transcritas com o uso de caracteres da língua japonesa.

A escritora Ana Suzuki escreveu os romances O jardim japonês (1986), Flor de vidro (1987) e Jônetsu, a terceira cor da paixão (1988). Vemos nesses livros uma intenção didática de divulgar a cultura nipônica. As palavras japonesas, por exemplo, são acompanhadas de uma definição ou uma explicação. Destaca-se, na obra de Suzuki, um grande respeito pelo modo de ser e existir do nipo-brasileiro. Em O jardim japonês, o protagonista, senhor Yoneda, é um velho imigrante japonês que procura manter as tradições que trouxe do Japão, mas se mostra aberto às contribuições do universo ocidental. Em seu jardim com pedras, caminhos de cascalho e areia, uma pequena cachoeira, um lago e uma ponte, ele planta um ipê-amarelo, símbolo do Brasil.

Eico Suzuki é precursora entre os escritores nipo-brasileiros. Seu livro Desafio ao imortal, de 1970, traz contos que reúnem o fantástico, a ficção científica e o terror psicológico, abordando temas que vão da impermanência à solidão do ser humano. 

Em 1991, Laura Honda-Hasegawa publica o romance Sonhos bloqueados. A autenticidade é a marca dessa obra. A autora descreve o cotidiano nipo-brasileiro como alguém que vive essa realidade. A protagonista Kimiko é educada para servir aos outros, principalmente aos homens da família. Mas suas desvantagens também dizem respeito ao fato de ser a irmã do meio. Eiko, a mais velha, vai para a cidade grande estudar corte e costura, enquanto Kimiko permanece em casa, encarregando-se dos afazeres domésticos. Mais tarde, quando Teresa, a irmã mais nova, vai para São Paulo estudar, decide-se que Kimiko deve acompanhá-la. Enquanto a caçula estuda na universidade para se tornar a doutora da família, Kimiko trabalha como cabeleireira. Aqui Honda-Hasegawa leva para a ficção uma situação comum nas famílias nipo-brasileiras: 

“[…] em muitas famílias japonesas no Brasil, existe uma clara separação social e cultural entre os irmãos, e também entre os pais e alguns de seus filhos. Em outras palavras, entre aqueles que ‘estudam’ e aqueles que ‘trabalham” (Saito; Maeyama, 1973, p.264). 

Em Sonhos que de cá segui (1997), Silvio Sam faz uma alusão óbvia no título ao decasséguis. Nesse romance o enfoque é sobre a experiência de brasileiros, descendentes de japoneses, que vão ao Japão para trabalhar em serviços que não requerem especialização, principalmente em fábricas. O leitor acompanha o casal Pedro e Mieko, que sofre humilhações e é vítima de trapaças e sofrimento físico no país de seus antepassados.  

No século XXI, despontaram outros escritores nipo-brasileiros, como Marília Kubota e Tieko Irii. André Kondo, Lucia Hiratsuka, Teresa Yamashita, Raquel Matsushita e Janaina Tokitaka se destacam na literatura infantil e juvenil. Hiratsuka, que também é ilustradora, ganhou dois Prêmios Jabuti na edição de 2019, com Histórias guardadas pelo rio (2018), na categoria Melhor Livro Juvenil, e Chão de peixes (2018), na categoria Melhor Ilustração, além de ter sido finalista em outras edições. Em Os livros de Sayuri (2014), ela tematiza a perseguição sofrida pelos imigrantes japoneses e seus descendentes durante a Segunda Guerra Mundial. Em uma passagem, uma família enterra livros escritos em japonês, pois era proibido possuir livros em línguas dos países pertencentes ao Eixo: “O pai pegou a pá e foi jogando terra. E a caixa ficou enterrada. Como se os livros estivessem mortos. Ou como se fossem tesouros? Os mortos não voltam. Mas e os tesouros?” (Hiratsuka, 2017, p. 14).  

André Kondo ganhou o Prêmio Jabuti de 2025 na categoria de livro juvenil com O silêncio de Kazuki (2024). Nesse livro o autor reúne um conjunto de crônicas que abordam de forma bastante emotiva a relação entre pai e filho. São histórias ancoradas na própria relação de Kondo com o seu pai, com reflexões sobre identidade e envelhecimento. Em “Homem aos pedaços”, que abre o livro, o autor escreve: “Meu pai é feito de silêncios. Talvez por isso eu tenha nascido, para ser a sua voz. Ou provavelmente eu só queira acreditar nisso. Aceitei que ter um pai japonês era ter um pai que fala pouco e nunca abraça.” (Kondo, 2024, p.11)

Os livros de Kondo contemplam o Japão ou o universo nipo-brasileiro. Em Contos do sol nascente (2011), o autor conta histórias que se passam no país de seus antepassados, histórias que soam como se fossem lendas de um Japão antigo. Depois, em Contos do sol poente (2021), ele narra histórias de nikkeis no Brasil.

Marília Kubota publicou, em 2020, um livro de crônicas intitulado Eu também sou brasileira. A obra resgata histórias familiares e passagens do cotidiano, conectando-as a reflexões sobre identidade e pertencimento, enfatizando a figura da mulher nipo-brasileira nesse contexto. O livro, como o título aponta, é quase uma reivindicação do direito de ser brasileiro numa sociedade que ainda percebe o nikkei através de estereótipos. 

Em 2025 Tieko Irii lançou o romance As ruas sem nome. A autora diz que o livro nasceu de uma autobiografia de seu pai, um imigrante japonês, que é transcrita em língua portuguesa na parte final do romance. A obra é uma biografia romanceada que narra as experiências da narradora como nipo-brasileira, desde a infância até o período da juventude, partindo da década de 1960 e seguindo até o início da década de 1990. Em algumas páginas, Irii aproveita para dissertar, quase como se fosse um ensaio, sobre questões sociais e políticas desse período e aspectos da cultura japonesa. Ao contar sobre suas experiências como nipo-brasileira no Brasil e no Japão, Tieko diz que aqui, muitas vezes, ela não era vista como brasileira, e lá, embora suas feições fossem totalmente de uma japonesa, ela era uma estrangeira. 

Neste século também foram lançadas obras de escritores sem ascendência japonesa que escreveram histórias sobre nipo-brasileiros. Nesse cenário se destacam Bernardo Carvalho, Adriana Lisboa e Cássia Penteado.

Em O sol se põe em São Paulo (2007), de Bernardo Carvalho, o narrador é um nikkei da quarta geração que vive um conflito muito grande em relação à sua identidade étnica. É um sujeito que se sente deslocado no mundo:  

“Durante muito tempo eu tentei fugir como o diabo da cruz de tudo o que fosse japonês (vinha daí a minha repulsa e a minha ignorância da literatura japonesa). Eu podia nunca ter pisado no Japão, mas por muito tempo tentei acreditar que era onde ficava o inferno.” (Carvalho, 2007, p. 29).  

Em Rakushisha (2007), de Adriana Lisboa, e Haicai (2021), de Cássia Penteado, as autoras conseguem captar aspectos essenciais da cultura japonesa, do modo de ser do japonês ou do nikkei. Ambos os romances têm uma cadência lenta, em que se diz somente o essencial. Como nos haicais, valem-se da imagem, do silêncio, do vazio, e o que não se diz também revela. No romance de Lisboa, que realizou uma pesquisa sobre o poeta Bashô em seu doutorado e passou uma temporada no Japão, o estilo denuncia a influência da poesia japonesa:  

“Acendi o incenso e coloquei dentro de uma pinha que tinha catado na rua. Liguei a tevê e zapeei por meia dúzia de canais. Desliguei a tevê. Lembrei-me de Marco e do dia em que tirei do mundo o caminho que levava a Marco. Um silêncio de mortos no campo de batalha. Um tom de sangue seco. Braços decepados. Olhos vazados. Um fantasma passa por entre os cadáveres sem tocar o chão.” (Lisboa, 2007, p. 117). 

O livro de Penteado é dividido em quatro partes bastante significativas: primavera, verão, outono, inverno. A narrativa é permeada por haicais. A construção do romance, tanto no enredo quanto na linguagem, é orgânica, e os elementos dialogam entre si. O cotidiano é vivido sem pressa. A linguagem é simples, fluida, e a contemplação da natureza leva a uma relação de interação:  

“O sol do inverno passeia sobre um colchão espesso de folhas secas aos pés das castanheiras. 

Nesse bosque, no inverno, inseto algum.” (Penteado, 2021, p. 83). 

Todas essas obras elencadas no presente ensaio contribuem para se realizar uma reflexão sobre a identidade nipo-brasileira, independente se foram escritas por autores com ascendência japonesa ou não. Essa literatura ainda é incipiente, principalmente, porque as famílias de imigrantes japoneses demoraram para se adaptarem ao Brasil e se integrarem à sociedade brasileira. Os esforços para a manutenção da identidade étnica, a discriminação sofrida pelos imigrantes e as barreiras linguísticas foram determinantes para essa demora. No caso da língua, os imigrantes japoneses produziram durante décadas uma literatura paralela em língua japonesa. Falta maior visibilidade a esses textos, que atualmente estão sendo recuperados por pesquisadores. 

A experiência diaspórica afetou sobremaneira o imigrante no que diz respeito à sua identidade. Esse conflito identitário atravessou gerações. A tensão entre a tradição dos antepassados e integração à cultura brasileira se estendeu por décadas e confirma uma identidade híbrida do sujeito nipo-brasileiro. Nesse contexto, o sentimento de pertencimento é um processo de difícil construção, que também depende da leitura que a sociedade faz desse indivíduo, que tem “cara” de japonês, tem nome de japonês, mas é brasileiro. 

O nikkei reforça a realidade multicultural cada vez mais presente no Brasil e no mundo. A sociedade é heterogênea em termos de raça, religião e cultura. Entretanto ainda há tentativas de restabelecimento de identidades puras, de manutenção de uma coesão nacional à base de discriminação. Valem-se, para isso, de práticas que vão de xingamentos ao lançamento de bombas. Nesse contexto, a literatura é um instrumento poderoso no exercício da alteridade. 

[1] É uma prática usada em produções teatrais e audiovisuais que consiste em caracterizar, por meio de maquiagem, atores de etnias não asiáticas para interpretar personagens amarelos. 

[2] É uma prática usada em produções teatrais e audiovisuais em que atores brancos são escalados para interpretar personagens que, originalmente, eram de outras etnias.  

REFERÊNCIAS

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KONDO, André. Contos do sol nascente. São Paulo: Editora JBC, 2011.

KONDO, André. Contos do sol poente. Jundiaí, Telucazu edições, 2021.

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TAKEUCHI, Marcia Yumi. Imigraçao japonesa nas revistas ilustradas: preconceito e imaginário social (1897-1945). São Paulo: Edusp, 2016. 

VILELA, Luiz. Um caixote de lixo. In: O violino e outros contos. São Paulo: Ática, 1989.

XAVIER, Valêncio. O mistério da prostituta japonesa. In: O mez da grippe e outros livros. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. p. 181-191. 

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