
Ecologia sonora: escuta e conhecimento
Resumo – Em fala de abertura do encontro “Ecologia sonora: escuta e conhecimento”, em 24 de junho de 2026 na Unicamp, Francisco Zmekhol (PPG-Música) reflete sobre a escuta como prática de construção de relações e de conhecimento. Indo da etimologia (οἶκος, vīcus, vicina , vizinho ) à poesia e dialogando com a antropologia perspectivista, o professor chama atenção para a relação entre o que seja uma casa comum e os mundos vizinhos que a constituem. Nesse contexto, a escuta é tomada como modelo para uma conduta ativa de estabelecimento de relações fundadas na diferença — uma conduta que demanda tradução e que há de ser transformadora.
Palavras-chave: ecologia sonora; escuta; conhecimento; alteridade; tradução.
Bom dia a todos,
A quem não me conhece, eu sou Francisco Zmekhol, atual coordenador do Programa de Pós-Graduação em Música da Unicamp e coordenador associado do GESom. Antes de mais nada, agradeço ao Prof. Mannis, pelo convite para compor esta mesa de abertura; agradeço a companhia de meus colegas nesta mesa — para além do próprio Mannis: o Prof. Cremasco e o Prof. Hashimoto —; e agradeço a cada pessoa presente neste encontro, porque, por meio da própria presença, propiciará as condições para que dialoguemos e troquemos ao longo destes três próximos dias.
Por hábito acadêmico, para preparar esta fala, fui, entre outras coisas, buscar e especular sobre a etimologia da palavra ecologia. A busca não era tanto por um sentido original do termo, supostamente purificado de seu uso, mas, ao contrário, pelas transformações de suas raízes através das sucessivas traduções; pela mitologia da palavra, que, sucessivamente recontada e deslocada de contexto, faz-se “suja” — e emprego aqui uma formulação de Ferreira Gullar — “sabe-se lá de que insondáveis significados” [1]. Sondemos uma partezinha deles — já será um tanto mais do que a suposta pureza.
Ecologia, através do alemão Ökologie, deriva dos termos gregos οἶκος — basicamente, casa — e λογία — normalmente traduzido como estudo, mas, mais propriamente, uma substantivação do que já era o substantivo λόγος, que pode significar palavra ou fala, mas cujos sentidos mais profundos (que o diga Fausto) são mesmo o abismo da razão. Está bem: “estudo da casa”, ou: “estudo das relações dos vivos entre si e com seu meio”. (Com uma ou outra variação, esta será a definição de dicionário.)
Ora, o termo grego para casa, οἶκος, terá, em seu cognato latino, seu sentido metonimicamente expandido, pois que vīcus [ˈwiː.kʊs] — ou [ˈviː.kus] — designará um conjunto de casas, isto é, a vila ou a vizinhança. De vicus decorrerá vicina, adjetivo cognato de vizinho, aquele que está não exatamente aqui, mas aí (“por perto”, “próximo”, “ao lado”, que seja).
Ao me deparar com essa interessante transformação (do grego, ao latim, ao português), não pude deixar de lembrar de uma reflexão de Viveiros de Castro sobre a palavra txai [2], usada pelos Kaxinawá, entre outros sentidos, como um vocativo para dirigir-se ao outro de quem se queira aproximar. Entre povos de tradição eurocristã, as palavras usadas nesse contexto são frequentemente derivadas de irmão: “mano!”, “brôu!”, “ô mermão!”. Txai, por outro lado, significa, basicamente, cunhado — atual, potencial ou virtual, mas que, para ser cunhado, não pode ser, de modo algum, irmão. Em um caso, o pressuposto da relação é a identidade; no outro, a diferença.
O paradigma da irmandade, é claro, implica o importante problema ético de que, se o fundamento da relação é a identidade, então ao diferente, ao outro, caberá um lugar de marginalidade — e, se a diferença é múltipla e a identidade absoluta, impossível, então o pertencimento ou não-pertencimento poderão ser estabelecidos segundo critérios sempre um pouco mais estreitos. Quem pertencerá à Irmandade? O Homo sabichão, em oposição a todas as outras espécies? O U.S. citizen, em oposição ao sapiens de qualquer outra nacionalidade? O morador do Morumbi ou do Hectares Park & Resort, em oposição, respectivamente, à comunidade de Paraisópolis, ou aos Kaiowás, Guaranis e Terenas das aldeias Jaguaripu e Bororó, no município de Dourados?
Ademais, a relação de irmandade é dada, não precisa ser construída ou cultivada. O paradigma da afinidade, por sua vez, é ativo, pressupõe a construção de uma relação — e, se o que há é maior ou menor diferença, a afinidade pode ser mais ou menos trabalhosa de se construir, demandar maior ou menor tradução e mediação, mas há de sempre ser possível. Em especial, Viveiros pontua que, entre cunhados, o termo que media sua relação tem significados distintos para cada um: “uma irmã para mim é uma esposa para meu cunhado” — isto é: a diferença de perspectivas não é impedimento, mas condição da relação.
Tendo por fundo as leituras de Viveiros de Castro e de Bruno Latour e, sobretudo, meu constante diálogo com Max Packer, aqui presente, pareceu-me particularmente estimulante, como uma das possíveis chaves de reflexão sobre ecologia sonora, essa transformação que se passa do οἶκος grego — isto é, a casa —, ao vīcus latino — a vila, enquanto casa metonímica, composta de casas várias — e ao vizinho português — o Esteves (“ó, Esteves!”), ou o Dono da Tabacaria, que, por definição, moram em outras, não nesta casa.
Partindo de um pequeno sistema de relações interespecíficas (mas que encontraria seus análogos intraespecíficos nas relações entre ocidente moderno e mundos ameríndios, seus análogos intra-ocidentais nas relações entre ciências duras e artes e assim por diante), só posso supor, por exemplo, que aquilo que, a nossos olhos, se assemelha ao οἶκος do sanhaço — isto é, o ninho em que protege e nutre seus filhotes — tenha significado muito distinto para o sariguê que, se tiver sucesso, devorará um ou outro de seus ovos; ou ainda para a amoreira que o sustenta — e cujos frutos serão, por ambos sanhaço e sariguê, comidos e suas sementes, disseminadas. Em certo sentido, deve haver de fato, aí — na amoreira, no quintal, na matinha da beira do rio —, uma casa comum, substrato imanente de todo esse sistema (aliás, aberto) de relações. Mas olhando bem de perto; contemplando as assimetrias das relações e as diferenças de significado que hão de ter, para cada sujeito aí envolvido, os mesmos referentes (o ninho-casa de um, o ninho-panela do outro); não será essa casa, ela mesma, composta por uma série de mundos vizinhos, que multiplicam entre si vizinhanças de mundos, pequenas transcendências?
Se assim for, se reconhecermos no οἶκος-vīcus, se reconhecermos no amplo Ecos seus ecos metamórficos, não se torna instantaneamente paradoxal e sobretudo irresponsável a ideia de que possamos conhecer, estabelecer e sustentar exclusivamente em nossos termos (isto é, nos termos de uma restrita irmandade ocidental-moderna) o que seja, para todos os outros, a casa comum? Se supusermos que possamos saber por nós mesmos em que consiste e do que precisa o grande οἶκος; se assim excluirmos (para nós mesmos) todos os demais de sua construção; se nos recusarmos a ouvir o que o outro tem a dizer sobre um mundo de que participa, ou se interditarmos, como um absurdo epistemológico, qualquer pergunta quanto à sua perspectiva — assumindo que só os possamos conhecer na medida em que os objetivemos e relegando a perspectiva, propriamente, ao incomensurável —; não estaremos — em uma violência primeiro simbólica e em seguida efetiva — dessubjetivando o outro de antemão? E, enquanto supomos (ou desejamos) cuidar da casa comum, não estaremos antes, em seu lugar, preservando e fortificando a muralha ora ontológica — a “Grande Divisão interior”, dirá Latour [3] —, ora epistêmica e política — a “Grande Divisão exterior” — que nos aparta dos demais; que, assim, estabelece unilateralmente um limite para as relações com o outro e que, pretendendo unificar, produz o outro oposto da diferença, que não se chama semelhança, mas in-diferença?
Se falamos aqui em um binômio escuta/conhecimento, se nos reunimos aqui para compartilhar nossas diferentes abordagens e perspectivas sobre uma ecologia sonora, creio ser, em boa medida, porque a escuta é o avesso da muralha, antídoto para a indiferença. Seja em sentido próprio, seja enquanto modelo de estabelecimento e de construção de relação, a escuta é ativa e visa um acesso ao mundo do outro sobretudo por meio de como o outro, ele mesmo, o expressa — isto é, sobretudo por meio de sua voz. É claro que esse acesso é assimétrico e que o que um diz jamais corresponderá inteiramente ao que o outro ouve; mas, voltando ao txai Kaxinawá — que, aliás, significando cunhado, serve para se dirigir ao amigo, ao estrangeiro e mesmo à memória dos Incas, mitologicamente concebidos como monstros canibais —, entendemos já que a afinidade se funda precisamente na diferença e na diferença de perspectivas. Longe de impossível, o que ela demanda é tradução.
Aliás, evocando o dito italiano, “traduttore, traditore”, Viveiros lembra Benjamin, que lembra Rudolf Pannwitz, para pontuar que bom tradutor “é aquele que trai a língua de destino, não a língua de origem” [4]. Assim, à potência ética e cosmopolítica da escuta, soma-se ainda uma importante potência ontoepistemológica: escutar implica transformar-se, deixar que ressoem em si a voz e o mundo do outro. Só posso crer que, na pequena e intensa ecologia deste evento, é o que viveremos ao longo desses três dias.
[1] Ferreira Gullar, 1989, p. 32.
[2] Viveiros de Castro, 2024[2004], p. 75–80.
[3] Latour, 1994[1991] p. 122–125.
[4] Viveiros de Castro, op. cit., p. 60.
REFERÊNCIAS
GULLAR, Ferreira. Indagações de hoje. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989.
LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos: ensaio de antropologia simétrica. Tradução de Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994.
VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. A antropologia perspectivista e o método de equivocação controlada. In: A floresta de cristal: ensaios de antropologia. São Paulo: n-1 edições, 2024. p. 57-80. (Texto originalmente publicado em 2004).
