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Mesa do IdEA destaca desigualdade, acesso e inovação como desafios centrais das doenças negligenciadas no Brasil

Mesa do IdEA debate doenças negligenciadas como problema social: acesso, diagnóstico, inovação e clima ampliam desafios no Brasil.

A terceira mesa do I Seminário IdEA trouxe ao centro do debate um tema que persiste há décadas como problema de saúde pública e de justiça social: as doenças que afetam populações negligenciadas. Com a apresentação “Negligenciadas, mas persistentes: desafios em pesquisa, diagnóstico e tratamento das doenças socialmente determinadas no Brasil”, a Profª. Drª Maria Rita Donalisio e Suzana Oliveira sintetizaram as discussões do Grupo “Estratégias para o enfrentamento às doenças que afetam populações negligenciadas”, enfatizando que o núcleo do problema não é apenas biomédico, mas profundamente político e social.

Logo no início, a mesa reposicionou a própria nomenclatura: embora frequentemente chamadas de “doenças tropicais negligenciadas”, o adjetivo “tropicais” é insuficiente para explicar a questão. O que define esse conjunto de enfermidades é a negligência estrutural — associada à desigualdade, à vulnerabilização de territórios e à precariedade de condições de vida, ambientais e sanitárias. Os mapas e dados apresentados reforçaram a assimetria global: a maior carga recai sobre o Sul Global, onde se sobrepõem pobreza, barreiras de acesso e baixa prioridade nas agendas de investimento.

A apresentação percorreu exemplos emblemáticos no contexto brasileiro, sublinhando padrões comuns: alta concentração em áreas vulneráveis, diagnósticos tardios, tratamentos difíceis e efeitos sociais duradouros. Nas leishmanioses, por exemplo, foram destacadas a complexidade clínica, as recidivas e o peso de tratamentos dolorosos, com drogas tóxicas e muitos eventos adversos. A mesa observou que, além do sofrimento físico, há impactos econômicos e logísticos relevantes, já que muitas pessoas precisam percorrer longas distâncias até serviços de saúde, enfrentando custos adicionais e perda de renda — um cenário próximo do que se denomina “gastos catastróficos” em outras doenças infecciosas.

A malária apareceu como desafio persistente, com concentração majoritária na Amazônia e relação estreita com degradação ambiental, assentamentos e áreas indígenas. A mesa chamou atenção para o impacto em crianças e para a urgência de diagnóstico precoce e tratamento adequado. Já a doença de Chagas foi discutida a partir de mudanças no perfil epidemiológico: queda de transmissão vetorial em algumas regiões, mas crescimento de casos relacionados à contaminação alimentar, além de desafios associados a migrações e à necessidade de fortalecer estratégias no SUS, incluindo vigilância, triagem e prevenção da transmissão vertical.

Na esquistossomose, a apresentação reforçou a dependência direta de saneamento básico e infraestrutura. Mesmo com retração territorial em comparação a décadas anteriores, o problema persiste em áreas historicamente vulnerabilizadas, com impacto contínuo e forte relação com habitação precária e baixa capacidade de resposta local. A hanseníase foi tratada como marcador de desigualdade persistente: o Brasil segue entre os países com maior carga global, com alta concentração em áreas de pobreza e um indicador alarmante — parcela relevante de novos casos diagnosticados já com incapacidades, sinalizando diagnóstico tardio e efeitos sociais aprofundados pelo estigma.

Além do panorama epidemiológico, a fala de Suzana Oliveira trouxe uma camada decisiva: a negligência também é resultado de um desalinhamento estrutural na inovação farmacêutica. A apresentação destacou o baixo interesse comercial historicamente associado a essas doenças e a consequente escassez de investimento em pesquisa e desenvolvimento. Foram mencionados desafios críticos em pesquisa clínica e em acesso, como a exclusão de mulheres (especialmente em idade fértil) de ensaios clínicos, com implicações diretas para segurança, eficácia e adequação terapêutica. Outro ponto central foi a urgência de diagnóstico descentralizado e simplificado, capaz de chegar a populações ribeirinhas, indígenas e comunidades distantes dos centros urbanos, e de reduzir a subnotificação e o atraso no início do tratamento.

A mesa também ressaltou obstáculos na etapa final do ciclo de inovação: não basta desenvolver medicamentos — é necessário garantir disponibilidade, logística, continuidade e adequação cultural no acesso. Isso inclui comunicação em linguagem sensível e compatível com contextos locais, respeito a práticas tradicionais e fortalecimento da atenção primária como eixo de cuidado. O debate incorporou ainda os impactos das mudanças climáticas, a expansão de áreas suscetíveis e a perspectiva de aumento de morbimortalidade por agravos evitáveis, reforçando que determinantes ambientais e mobilidade humana estão reconfigurando padrões de transmissão.

Nas recomendações, apareceu uma convergência: enfrentar essas doenças requer políticas integradas, articuladas a agendas de combate à fome, violência, exclusão e desemprego, além de ações específicas de vigilância, diagnóstico e assistência. Também foram sublinhadas a importância da formação de pesquisadores com visão interdisciplinar e a necessidade de autonomia sanitária, reduzindo dependência externa de insumos farmacêuticos ativos e fortalecendo a capacidade nacional de resposta.

O debate final reforçou o caráter estruturante do tema para o IdEA: tornar visíveis as populações negligenciadas e sustentar a discussão como compromisso público da universidade. A mesa sinalizou continuidade e desdobramentos, incluindo a perspectiva de um encontro mais amplo no próximo ano, como forma de manter o tema em pauta e ampliar a articulação entre competências internas e parcerias externas.

Assista na íntegra a apresentação disponível no YouTube.

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