Como situar uma trajetória que atravessa áreas tão distintas como a engenharia acústica, a composição musical e a educação? Essa é a questão que orienta outro momento da entrevista com o professor José Augusto Mannis (Instituto de Artes da Unicamp), ao refletir sobre o lugar de Conrado Silva na história da música e das artes sonoras no Brasil.
A resposta, segundo Mannis, começa por reconhecer o caráter plural de Conrado Silva. Ainda jovem, ele se formou em engenharia acústica em Berlim, ao mesmo tempo em que desenvolvia um interesse profundo pela música. Essa formação híbrida permitiu que atuasse tanto no campo técnico — dominando processos de gravação, edição e comportamento acústico dos espaços — quanto no campo artístico, como compositor ligado à música contemporânea.
No Brasil, sua atuação foi decisiva para a consolidação da acústica arquitetônica, contribuindo para a criação de referências, normas e discussões fundamentais na área. Ao mesmo tempo, participou de movimentos importantes da música contemporânea e da articulação de redes latino-americanas, como os cursos itinerantes que reuniam artistas e pesquisadores em diferentes países.
Mas é no campo do ensino que sua contribuição assume um caráter mais transformador.
Ao falar das oficinas de música, Mannis destaca uma mudança de paradigma: em vez de um aprendizado baseado na preparação teórica anterior à prática, Conrado Silva propunha um modelo construtivo, em que o conhecimento se desenvolve na própria experiência. Aprende-se música fazendo, ouvindo, experimentando.
Nesse contexto, a oficina não é apenas um espaço de execução, mas também de percepção. Trata-se de ampliar a escuta, compreender diferentes formas de ouvir — da música barroca à paisagem sonora — e desenvolver uma relação mais ativa com o som.
Essa abordagem também redefine o papel do professor. Em vez de transmitir conteúdos de forma declarativa, Conrado Silva estimulava o pensamento crítico, incentivando cada participante a refletir sobre suas próprias escolhas e processos criativos.
Mais do que ensinar técnicas, tratava-se de formar uma postura diante da criação e do outro. Uma prática aberta, que busca acolher, questionar e construir coletivamente.
Ao revisitar sua trajetória, torna-se evidente que Conrado Silva não se restringe a um campo específico. Sua atuação articula técnica, criação e pensamento — e é justamente nessa interseção que reside sua singularidade.
Esse trecho da conversa aprofunda o entendimento sobre seu papel na música e nas artes sonoras, revelando camadas que vão além de sua produção individual.
Assista ao trecho completo da entrevista realizada ao IdEA em pauta.
