Os vários negacionismos da policrise planetária: incertezas e visões de túnel [1]
Resumo – A complexidade da policrise deixa lacunas e déficits de interpretação da realidade que têm sido facilmente preenchidos por negacionismos diversos. Enquanto alguns negacionismos aparentam delirar sobre a materialidade, como no caso do terraplanismo, as consequências da gama de dúvidas e teorias alternativas conspiratórias do campo negacionista são graves e diversas, como vemos na resistência às vacinas, na recusa em reconhecer genocídios históricos e contemporâneos e na normalização da emergência climática. A partir de uma leitura crítica dos vários negacionismos, classificados principalmente através dos estudos do sociólogo Stanley Cohen, argumento ser preciso escapar das tendências de visões de túnel que atrapalham o desenvolvimento de resistências amplas e soluções concretas que adereçam os problemas pela raiz. Isso é importante como uma das táticas contra a passividade de resposta às várias crises e atrocidades da policrise planetária, e para favorecer alinhamentos de diagnósticos e alternativas capazes de interromper a normalização em curso de grandes catástrofes pelos negacionismos, sejam eles extremos e caricatos, ou parciais e oportunistas.
Palavras-chave: negacionismo; policrise planetária; mudanças climáticas; pandemia; genocídios
INTRODUÇÃO
Os negacionismos estão na moda. Se antes era possível argumentar que a negação de fatos materiais e a realidade concreta se originavam na ignorância e na desigualdade do acesso à educação e ferramentas de letramento, hoje reconhecemos que se trata de contexto muito mais complexo. É impossível indagar sobre os negacionismos sem considerar também o papel do capitalismo em organizar conhecimentos, gerando hierarquias e lacunas na sua produção e divulgação, de modo a garantir resultados oportunos para o lucro e a expansão do seu regime de acumulação no planeta Terra. Impera a produção de negacionismos plurais, que variam em teor e gradação, pois a confusão e a dúvida obstruem caminhos de fácil resolução. Não basta apenas corrigir uma afirmação ou interpretação equivocada. Alegar autoridade científica tampouco é suficiente, especialmente quando o negacionismo também passa a se fazer presente nos espaços acadêmicos e outras instituições dedicadas ao conhecimento, além de circular facilmente através de governos, corporações e a imprensa.
Nesse contexto, é preciso explorar os tipos de negacionismo que enfrentamos no século XXI para entender como eles se relacionam entre si e que tipos de posturas — metodológicas, práticas e teóricas — podemos desenvolver contra os negacionismos. Dado que vivemos uma grande policrise planetária, é estratégico identificar negacionismos além de suas versões mais caricatas, permitindo eliminar falsas soluções e alternativas oportunistas que supostamente abordam os problemas centrais, mas acabam piorando outras crises e agregando à policrise geral (Fernandes, 2023). Não há mais tempo nem condições materiais-metabólicas para visões estreitas e soluções meramente pontuais. Portanto, este artigo explora tanto as camadas negacionistas e seus perigos como o problema das visões de túnel, em que negacionismos parciais impedem o reconhecimento da raiz dos problemas e favorecem soluções ideológicas que, ao ignorar a conectividade sistêmica e o metabolismo terrestre, prejudicam a construção de alternativas possíveis.
NEGACIONISMOS PLURAIS
Um negacionismo não é como outro. Popularmente, imaginamos negacionistas por meio de seu extremo. Talvez o exemplo mais concreto desse extremo seja o terraplanismo, que propõe que a Terra é um disco plano e não um planeta esférico, como comprovado cientificamente por diversos métodos no decorrer da história. Embora o movimento negacionista terraplanista tenha origem no século XIX, essas ideias retornaram com certo destaque nos últimos 10 anos, especialmente por meio de vídeos e comunidades na Internet, e como contestação religiosa ao método científico (Martins; Gonsalves; Estêvão, 2022, p. 3). Apesar de ser um movimento de aparência isolada, a divulgação da dúvida a partir do terraplanismo, propagado como se tratasse de questionamento legítimo às autoridades científicas e estatais, pode levar a um alcance maior do que esperado. Uma pesquisa do Datafolha de 2019 indicou que cerca de 7% dos brasileiros acreditam que a Terra é plana, com maior proporção de adesão entre católicos e evangélicos e entre pessoas de menor escolaridade (Garcia, 2019).
O número preocupa não porque a crença individual de que a Terra seja plana possa intervir massivamente em outros aspectos da sociedade, mas porque é sintomático da erosão de consenso sobre fatos bem estabelecidos e verificados, caracterizando um dos pilares da chamada pós-verdade. É também motivo de apreensão porque a pós-verdade não é um fenômeno acidental ou ocasional, já que agentes diversos atuam para manipular fatos, interpretações de fatos e narrativas diversas para atingir seus interesses pessoais, institucionais, políticos e/ou corporativos. Por isso, chama a atenção como o terraplanismo não é difundido apenas por figuras isoladas e ocultistas, mas também por agentes que aparentam credibilidade e até mesmo possuem formação em áreas relevantes. Como relatado na pesquisa, no caso brasileiro, há até canal de YouTube terraplanista de um doutor em geofísica (Garcia, 2019). O canal, que alega abordar “ciência de verdade”, acumula centenas de milhares de inscritos e exemplifica como títulos e históricos acadêmicos também podem ser instrumentalizados para manipular a opinião através de um suposto argumento de autoridade.
O manto acadêmico também impulsiona a normalização da presença de argumentos negacionistas, seja em nome de uma versão de liberdade acadêmica, seja porque passamos a esticar o benefício da dúvida, confundindo a indagação e a curiosidade, que são essenciais para a investigação acadêmica, com espaço para perguntas maliciosas e a propagação de falácias como se tratassem de meros contra-argumentos. É assim, por exemplo, que um professor de geografia física, abertamente negacionista das mudanças climáticas e da pandemia da Covid-19, chegou a atuar em universidade pública até 2023 (O Globo, 2023). O professor em questão já havia sido criticado diversas vezes por importantes pesquisadores do clima no Brasil, que apontavam os aspectos farsantes de suas publicações, além de sua problemática atuação nas redes sociais.
Esse tipo de negacionismo pode ser classificado como absoluto, extremo ou literal. Embora o imaginário do negacionismo extremo remeta a pessoas reclusas e excêntricas, esse tipo de negacionismo é instrumento importante para que agentes poderosos consigam influenciar rumos políticos. É por isso que, ao pensarmos em negacionismo, devemos considerar alguns fatores que vão além da crença em si. No caso do papel dos combustíveis fósseis nas mudanças climáticas, é sabido que, entre os agentes que mais financiaram pesquisas maliciosas e problemáticas para falsear dados e enganar sobre a realidade, estava a petrolífera estadunidense ExxonMobil. A corporação não é negacionista no sentido de que não sabia (ou não acreditava) que a crise climática era real e por isso propagava negacionismo. Pelo contrário, a ExxonMobil tinha dados precisos que apontavam para o aquecimento global, mas fez escolhas lucrativas para promover negacionismo e alimentar o lobby que pudesse enganar sobre os principais fatores causadores das mudanças climáticas. Isso quer dizer que, mesmo sabendo a verdade desde a década de 70, a empresa optou pela mentira, pois sua preocupação não era com a sustentabilidade planetária, mas com as projeções de lucro e a expansão de suas atividades capitalistas. Para os executivos, o negacionismo se tornou uma ferramenta preciosa, fomentando dúvida suficiente para retardar e obstruir ações concretas. Uma revisão consistente dos dados e conclusões de conhecimento interno da ExxonMobil (e de seus próprios cientistas) revela o contraste com seus posicionamentos públicos, que apostavam em semear incerteza: “Em 2004, por exemplo, eles afirmaram que ‘as incertezas científicas continuam a limitar nossa capacidade de fazer determinações objetivas e quantitativas sobre o papel humano nas recentes mudanças climáticas’, uma afirmação que era contrária à análise de seus próprios cientistas” (Supran; Rahmstorf; Oreskes, 2023, p. 7).
Entender esse histórico é fundamental para acrescentar complexidade à nossa interpretação e análise dos negacionismos. Embora muitos negacionistas sejam também crentes do negacionismo, podemos especular que a maioria dos negacionistas notórios, ricos e poderosos, tem interesse em propagar o negacionismo, independentemente de sua crença pessoal. A ExxonMobil seguiu investindo em conhecimento científico sobre as mudanças climáticas enquanto também investia em lobby e na propagação da dúvida sobre o tema. Nunca se tratou de reconhecer a gravidade, soar o alarme e promover mudanças radicais que levariam ao encerramento das atividades da própria empresa. Como bom exemplar do capitalismo fóssil, o objetivo passava por aumentar a longevidade das operações de combustíveis fósseis e petroquímicas em geral, mesmo que isso significasse sacrificar a longevidade da vida no planeta. Na melhor das hipóteses, como também é praxe em outros setores corporativos, buscava-se manter o business as usual, na esperança de que novos avanços tecnológicos pudessem resolver o problema de emissões ou seus efeitos, sem que precisássemos alterar o modelo produtivo e as demais atividades socioeconômicas desiguais que dão o caráter antropogênico às mudanças climáticas.
Nesse sentido, podemos afirmar que o negacionismo pode ser operado dentro de vários lugares, a partir de diversos interesses e levando a gradações diferentes de crenças. Embora seja útil aos negacionistas do clima, principalmente os mais envolvidos com o capital fóssil, que pessoas duvidem integralmente do aquecimento global — a ponto de alegarem que não passa de um ciclo planetário natural ou de ação vulcânica —, outras formas de negacionismo também cumprem seu papel. Mesmo tratando-se de versões menos literais e extremas, sua função de incerteza é suficiente para obstruir soluções radicais (que vão à raiz do problema) ou para alimentar soluções falsas ou parciais que aparentam levar a crise a sério, mas ainda priorizam a longevidade do sistema capitalista de produção e exploração de recursos.
O nexus Antropoceno-Capitaloceno nos ajuda a compreender o papel cumprido pelos negacionismos, sejam eles literais, interpretativos ou implicatórios. Se o Antropoceno sugere que a sociedade humana, organizada de maneira elitista, desigual, dispendiosa e expansiva, está deixando impactos irreversíveis no planeta, o Capitaloceno nomeia o sistema capitalista como principal responsável por esses impactos e sua aceleração nos dias de hoje. Portanto, embora eu favoreça uma interpretação do Antropoceno de que a policrise não seria exclusiva do capitalismo, podendo a sociedade humana se encontrar em situação análoga de múltiplas crises de cunho catastrófico em outros arranjos produtivos negacionistas dos limites planetários, olhar para o Capitaloceno nos ajuda a entender como esses negacionismos são essenciais à manutenção do poder do capital e ao desenvolvimento de novos mercados e mercadorias que servem à gestão das crises (Angus, 2016; Fernandes, 2026; Moore, 2016). Isso quer dizer que é insuficiente analisar processos negacionistas apenas do ponto de vista cognitivo e psicológico, pois há uma economia política que sustenta os negacionismos e os instrumentaliza para o fortalecimento do capital em suas várias facetas: fóssil, extrativista, financeiro, industrial e até mesmo ‘verde’. Faz-se necessário compreender tanto os processos cognitivos que levam à negação quanto os interesses políticos e econômicos que fomentam tais processos.
A recente pandemia mostrou que o negacionismo mata, fazendo vítimas entre os que acreditavam na gravidade da covid-19 e entre os que negavam seu impacto em algum grau. Durante os anos de pandemia, testemunhamos a coexistência entre essas gradações de negacionismo. Há aqueles que diziam não passar de uma “gripezinha”, há outros que acreditavam que era real, mas não levavam as medidas de prevenção a sério, há quem se prevenisse, desde que não envolvesse tomar as novas vacinas desenvolvidas, e há também aqueles que, em tom mais conspiratório, alegavam se tratar de um processo autoritário para o controle da população global, o que exigiria resistência às narrativas e às políticas públicas aplicadas na época. Apenas no Brasil, falamos de mais de 700.000 óbitos acumulados por coronavírus, enquanto a Organização Mundial de Saúde já estimava em 2022 que a pandemia tenha levado à morte de quase 15 milhões de pessoas no mundo (Grimley; Cornish; Stylianou, 2022; Painel Coronavírus, 2025). A responsabilidade por essas mortes é diversa, mas certamente variantes de negacionismo cumpriram um papel determinante em muitas delas. No caso do negacionismo das vacinas, não havia nem a ilusão de que escolaridade e acesso à informação fossem suficientes para garantir adesão, visto que a ideologia antivacina ganhou espaço também entre pessoas letradas ao redor do mundo (Gomes; Zamora, 2024, p. 9). Isso indica que o negacionismo se estabelece a partir de uma série de fatores e sua adesão também varia de acordo com contextos específicos, não sendo possível abordar o negacionismo como homogêneo e único.
Embora seja possível apontar os grandes negacionistas, entre presidentes, CEOs e influencers, uma vez que o negacionismo adentra o imaginário social, ele se torna difuso através dos vários graus de incerteza sobre o fato, suas razões e suas soluções. Assim, convém olhar para os negacionismos através da classificação proposta por Stanley Cohen, já que permite inserir o modo de cognição sobre os fatos nas consequências materiais e sociais da negação (Cohen, 2013). Cohen propõe classificar os negacionismos em ao menos três categorias. O negacionismo literal é aquele explícito e extremo que já exploramos aqui e que tem por base a recusa de reconhecer os fatos concretos. O negacionismo interpretativo reconhece os fatos crus, mas aplica a eles significados divergentes, de modo que as pessoas passam a questionar razões e contextos. No caso do negacionismo do Holocausto, do genocídio armênio ou do genocídio palestino, as pessoas podem até reconhecer as mortes, mas podem argumentar que se trata de efeito colateral ou de casualidades esperadas de guerra. Por fim, no negacionismo implicatório, as bases factuais e significados básicos operam normalmente, mas a responsabilidade pelas consequências é negada. Aplicando-se às mudanças climáticas, o negacionismo literal propaga que não passa de uma grande conspiração e que os dados são falsos, o negacionismo interpretativo reconhece que há aquecimento, mas trata como algo natural dos ciclos terrestres, enquanto o negacionismo implicatório vê a realidade da crise climática, mas nega as competências, responsabilidades e ferramentas necessárias para agir sobre ela. Todos esses negacionismos costumam operar ao mesmo tempo, mas os negacionismos interpretativos e implicatórios são os mais abundantes, pois se fazem presentes mesmo entre atores e espaços de reconhecimento pelo método científico e certo zelo factual. Tais negacionismos convivem com elementos verdadeiros da realidade, sendo necessário enxergar as expressões de negacionismo em suas gradações e adaptações. Em um sistema de incerteza, o negacionismo pode operar tanto com convicção absoluta em uma versão fantasiosa quanto com grande ceticismo diante da apresentação de fatos e narrativas embasadas.
Cohen também explica que o negacionismo pode ser pessoal, cultural ou oficial, operando em diferentes registros temporais. Essa distinção de competência também é de escala e explica como um governante, como Donald Trump, pode promover políticas amplamente negacionistas da mudança climática, mas em graus variados. Enquanto reorganiza investimentos e políticas domésticas nos Estados Unidos para priorizar a produção de carvão mineral, um dos piores combustíveis fósseis, e remover incentivos à mobilidade elétrica, também busca expandir seu acesso externo a reservas de minerais estratégicos tanto para eletrificação e a descarbonização — componentes de uma política de transição energética — como para a produção industrial de armamentos, data centers e outras mercadorias visadas pelo capitalismo e o modo de vida imperial propagado nos países ricos. Isso significa que, como pessoa, importa pouco se Trump é um negacionista literal das mudanças climáticas. O que nos atinge é o método que abusa de táticas de negacionismo literal, interpretativo e implicatório no âmbito da política institucional e oficial que forma a fachada do estado mais poderoso do mundo. Se culturalmente o trumpismo é negacionista, como detentor da máquina do estado, Trump transfere o negacionismo cultural de seu campo ideológico para o uso ou manipulação do uso de recursos pelo estado, tornando-se, na prática, um negacionismo oficial, mesmo que 72% da população geral dos Estados Unidos reconheça a crise climática em algum teor (Leiserowitz et al., 2026).
Além disso, entramos em outra distinção importante feita por Cohen, dessa vez a respeito de agência. Voltemos ao exemplo da pandemia. Em uma distinção sobre perpetradores, vítimas e observadores como categorias fluídas, enxergamos perpetradores na pandemia como aqueles que reforçaram políticas que impediram a proteção de pessoas ou aqueles que buscaram maximizar o lucro durante a pandemia. As vítimas, obviamente, são a maioria da população global, expostas ou vivendo sob o risco de exposição ao vírus, podendo adoecer e até mesmo morrer por isso. No caso da pandemia, é difícil alegar a existência de observadores puros, que seriam como uma audiência, como expectadores da tragédia, embora em algum grau todas as vítimas em potencial também tenham sido testemunhas transeuntes de aspectos da pandemia em algum outro lugar, a exemplo dos habitantes de muitos países quando o vírus ainda estava contido à China ou quando o Norte Global já tinha acesso a vacinas que o Sul Global ainda lutava para adquirir.
Enquanto perpetradores engajam-se com negacionismos públicos, especialmente se puderem fazê-lo penetrando no meio cultural e oficial, podemos especular que muitos deles fazem uso do negacionismo de forma consciente, sabendo bem da realidade que querem manipular. No negacionismo da pandemia, argumento que há também observadores/vítimas que se juntaram ao campo dos perpetradores justamente por se tornarem figuras bastante vocais do negacionismo. Uma vez que alguém levanta a bandeira negacionista, não seria ela também cúmplice da catástrofe em curso? Negacionistas enganados ou enganadores, se passam a praticar o negacionismo em alto volume, sem buscar averiguar a realidade, acabam auxiliando o projeto negacionista em algum grau, juntando-se em responsabilidade marginal aos perpetradores originais. Ademais, o perpetrador também pode ser vítima de si mesmo, como relatado em alguns casos de notoriedade, no exemplo do médico negacionista Anthony Wong, que faleceu de Covid-19 em 2021(Costa, 2021).
No caso de um genocídio, convém diretamente que o perpetrador do mesmo invista em propaganda negacionista que oculte a realidade, já que diminui a possibilidade de oposição política. Analisando genocídios e outros processos de opressão massiva, Cohen se preocupa em especial com a questão da agência de observadores, já que acabam sendo os alvos da propaganda negacionista. Já que são alvos, interessa identificar os tipos de observadores: se imediatos (testemunhas em primeira mão), externos (recebem informações de fontes secundárias) e estados espectadores (outros governos ou organizações internacionais) (Cohen, 2013, p. 15). Entender como observadores interagem com o conhecimento verdadeiro da realidade ou com narrativas negacionistas é muito importante para medir que tipo de resposta é possível. Cohen se preocupa com a possibilidade de uma certa passividade, que também pode variar em razão, seja porque se acredita que a responsabilidade para agir é de outro ou porque não se sabe exatamente como agir de maneira efetiva. Isso indica que nem todos que caem na passividade são negacionistas, porém, sua passividade — ou fatalismo, ainda pior — é um fator vantajoso nos cálculos dos perpetradores. Afinal, o perpetrador aposta na falta de resistência aos seus planos. Para isso, é necessário que vítimas e observadores não se levantem, ou por estarem com a capacidade dizimada para agir ou por crerem não ser possível agir. Quando há possibilidade de resposta dentro do conhecimento dos fatos, opta-se por várias linhas de negacionismo que sejam capazes de semear incerteza, confusão e atrito, o que garantirá apoiadores ferrenhos para seu projeto ou ao menos atrapalhará as táticas e estratégias de ação dos opositores.
Uma investigação recente a respeito de um evento financiado pela indústria dos combustíveis fósseis nos Estados Unidos revelou como uma parceria milionária entre fundações e acadêmicos foi estabelecida para influenciar juízes a avaliar questões relacionadas ao clima sob a ótica dos interesses da indústria (Lustgarten, 2026). Enquanto a sociedade civil se esforça para promover iniciativas de educação e letramento climático, lobistas organizam conferências em contextos luxuosos para oferecer “aos juízes uma compreensão abrangente e um ceticismo saudável em relação às invocações da ‘ciência’ que se escondem nos bastidores dos processos judiciais que estão julgando” e para que concluam que “muito do que é apresentado como ‘ciência’ para fins de influência nunca precisa passar por testes de rigor, confiabilidade e qualidade perante um árbitro neutro” (Lustgarten, 2026). Essa tática finge partir de uma preocupação legítima a respeito de pluralidade e contraditório no debate intelectual para abrir caminho para proposições problemáticas e negacionistas, uma vez que executa o oposto do letramento científico, o qual ensina a “distinguir as diferenças entre a argumentação de peritos científicos especializados e a opinião de proponentes de alegações cientificamente não fundamentadas” (Gomes; Zamora, 2024, p. 3).
Isso quer dizer que, embora tenha se tornado difícil argumentar abertamente pelo negacionismo literal das mudanças climáticas, caminhos que duvidam de consensos científicos ainda são viáveis, especialmente quando acompanhados por acadêmicos e outras autoridades intelectuais dispostas a distorcer fatos e métodos para promover os interesses dos perpetradores. Uma vez que a população geral passa a identificar as mudanças climáticas como fato concreto, os perpetradores passam a apostar nos ruídos que possibilitem uma mescla entre políticas climáticas e políticas do business as usual, principalmente se o interesse é garantir que os setores de combustíveis fósseis, do agronegócio, da construção civil, de transportes, entre outros, tenham que se adaptar, mas não radicalmente. Mais ainda, é preciso impedir que esses setores sejam identificados como os perpetradores, promovendo a visão de que se tratam de aliados, protagonistas e agentes com os quais devemos dialogar se pretendemos atingir qualquer meta concreta. Nesse sentido, argumento que podemos separar as funções dos negacionismos também em três: obstrução, postergação e desfiguração. Todos os tipos de negacionismo se sustentam em cima da geração de incerteza, apostando no quanto graus diferentes de incerteza podem se tornar suficientes para obstruir ações, postergar soluções e para se apropriar das pautas para desfigurá-las — inclusive se apropriando delas para garantir interesses privados. Para isso, são empregados diversos mecanismos, desde que colaborem com os objetivos gerais dos perpetradores. Somando-me à taxonomia de Cohen (2013), vemos as diferentes camadas de operação dos negacionismos na Tabela 1:
| Base de negação (conteúdo) | Nível (organização) | Agente | Tempo | Função (intuito) |
| Literal | Pessoal | Vítima | Histórico | Obstrução |
| Interpretativo | Cultural | Perpetrador | Contemporâneo | Postergação |
| Implicatório | Oficial | Observador | Desfiguração |
Tabela 1. Camadas de operação dos negacionismos
O negacionismo sobre Gaza tem grande repercussão e diz respeito a uma situação que é analisada como genocídio e ecocídio, devido à destruição proposital do ecossistema local e à contribuição das ações militares às mudanças climáticas (Hamouchene, 2025). Todavia, até hoje observadores resistem em empregar os conceitos de genocídio e ecocídio, sabendo do peso histórico que podem agregar e do tipo de responsabilização exigida dos líderes israelenses — alguns dos quais são alvos de mandados de prisão pelo Tribunal Penal Internacional (TPI/ICC). Durante os primeiros anos do genocídio, bastante tempo foi gasto discutindo a semântica do genocídio, sabendo que a classificação era importante não somente para descrever a realidade adequadamente, como para encaminhar uma estratégia de ação unificada global que pudesse parar as atrocidades. A recusa do reconhecimento do genocídio e do ecocídio alonga o sofrimento palestino, especialmente quando este passa a ser ignorado pela imprensa e por outros governos, inclusive aqueles que fizeram fortes chamados ao cessar-fogo, mas se contentaram com tentativas de resoluções multilaterais que foram incapazes de abordar o genocídio à altura (Bento, 2024; Hamouchene, 2025; Huberman; Fernandes, 2024). Com o tempo, a quantidade de imagens e relatos ao vivo ajudou a penetrar as barreiras negacionistas, mas não o suficiente para eliminar dúvidas e incertezas e, principalmente, transformar comoção em medidas concretas por governos e pela maioria da sociedade civil.
Como a respeito do clima, a estratégia passa a ser de confundir, até mesmo sob manto e aparência de discussão acadêmica, possibilitando uma alternância tática entre dizer que não há genocídio algum e narrar que talvez haja um genocídio, mas não a ponto de justificar medidas mais radicais contra o Estado de Israel, como prisões ou sanções. Martin Shaw, estudioso renomado do fenômeno do genocídio, chegou a alegar que, no caso de Gaza, até a imprensa global que engajou diretamente com narrativas negacionistas, distorcendo o contexto como se fosse uma simples guerra entre o grupo Hamas e o estado de Israel ou promovendo que o conceito de genocídio não seria um descritor adequado para a situação, já começava a abrir mão de sua tendência negacionista em 2025 (Shaw, 2025). Todavia, a redução do negacionismo literal não implica necessariamente a ausência de negacionismos interpretativos e implicatórios, os quais podem aumentar em contextos de grande incerteza. Opera então um estado de normalização e coexistência entre negacionismos e fatos soltos, levando a visões isoladas sobre os temas e sem estratégia que possa conectar os pontos, comunicar a totalidade da realidade, e assim informar ações concretas e efetivas que são necessárias para impedir maiores catástrofes. Como alerta Ron Dudai, os argumentos dos negacionistas dependem de malabarismos, alternando entre os registros de negacionismo literal, interpretativo e implicatório elaborados por Cohen: “há de fato fome em Gaza, mas a culpa é do Hamas; de que se trata de uma consequência indesejada da guerra; ou de que o mundo é hipócrita por não tratar a fome no Iêmen da mesma forma” (Dudai, 2025). A diversidade de negacionismos se faz necessária para lidar com a avalanche de contra-argumentos e evidências, assim como o risco de constrangimento e dúvida entre os próprios perpetradores e cúmplices. No fim das contas, ao passo que membros da imprensa e governos ao redor do mundo começam a reconhecer o genocídio — e marginalmente o ecocídio, por se tratar de uma categoria ainda recente em tais análises —, as incertezas sobre o grau de impacto, sobre a agência dos perpetradores e sobre a responsabilidade de ação já são suficientes para atingir os principais intuitos do negacionismo em obstruir, postergar ou desfigurar estratégias e soluções. São também pilares centrais da formação de justificativas para o injustificável.
VISÕES DE TÚNEL E A NEGAÇÃO DA RAIZ DO PROBLEMA
Os casos apresentados demonstram que não há uma configuração única de operação do negacionismo. A depender do intuito, lança-se mão de mais de uma combinação, aproveitando-se da normalização da incerteza na sociedade e das respostas acionadas na população. Perigosamente, passamos a conviver também com negacionismos disfarçados de meras divergências ou de pluralidade argumentativa. Isso possibilita a entrada de negacionistas em espaços de tomadas de decisão, influenciando resultados e encaminhando “soluções” oportunas. A normalização de gradações consideradas mais leves de negacionismo — negacionismo “soft” ou “light”, no sentido de que não contradiz a realidade como um todo — ajuda a mascarar os antagonismos — de classe e de interesses — e garante que os perpetradores ganhem espaço suficiente para orientar os cursos de ação e sejam até mesmo vistos como parte da solução. A formação de visões de túnel sobre os fatos e consensos é fundamental para garantir resultados convenientes, mesmo em espaços não negacionistas e dispostos à ação. A visão de túnel consiste em isolar fatores, contextos e elementos conectivos ao abordar um evento ou problema, concentrando a visão do diagnóstico e das soluções propostas em pontos de fácil consenso. Como resultado, soluções sistêmicas e radicais são evitadas — talvez nem mesmo consideradas —, o que facilita a manutenção dos processos e ações dos perpetradores. Também podemos ver os efeitos danosos de visões de túnel e seu aporte aos interesses negacionistas ao avaliar a pandemia, genocídios e a crise climática.
No que consiste a visão de túnel no caso de um genocídio? Visões de túnel geralmente elegem causas específicas, isoladas, que não dão conta dos fundamentos sistêmicos que levam a uma crise ou problema grave. Isso possibilita negacionismos interpretativos, em que o problema passa a ser uma simples crise humanitária que pode ser resolvida com a entrada e atuação de agências humanitárias internacionais. Mortes, fome e destruição generalizada aparecem como pano de fundo da crise, mas a agência por trás da catástrofe é ignorada. Nesse tipo de visão de túnel humanitária, abordam-se os efeitos, nunca a causa — especialmente quando se repudia a possibilidade de se envolver politicamente, com posturas firmes, para lidar com causas. Há também visões de túnel de caráter negacionista implicatório. Seu estilo é de formulação de justificativas, portanto exige escolher elementos de análise que possam sustentar a narrativa escolhida. Para Cohen, são inúmeras as categorias de justificativa para o sofrimento, mas algumas se destacam, como o argumento de necessidade, de negação das vítimas e de escolhas comparativas convenientes (Cohen, 2013, p. 110–111). Respectivamente, pode-se alegar que o sofrimento causado é resultado de autodefesa necessária, ou que as vítimas não são bem vítimas (são terroristas ou civis usados como escudo humano pelos terroristas) num processo de desumanização, ou que seria hipocrisia dos observadores se preocuparem tanto com o caso em questão quando há tantos outros casos preocupantes no mundo também. Esse último artefato promove a distração no observador, como se o problema fosse a importância dada ao caso e não a importância de fato do caso.
Tal lógica também provoca visões de túnel ao esconder especificidades presentes na raiz do genocídio, levando a crer, por exemplo, que um instrumento diplomático ordinário qualquer funcionaria. Poderíamos, então, alegar que a visão de túnel do cessar-fogo nos últimos anos envolvendo Hamas e o estado de Israel também criou aberrações ao isolar o genocídio de seu contexto histórico colonial e da desigualdade de poder (econômico, militar e estatal). Embora o cessar-fogo seja uma condição importante para a paz, há negacionismo em reduzir a resolução de um conflito — de faceta colonial histórica — a um acordo pontual. Um dos resultados foi a normalização estranha de ênfases sobre o respeito real ao cessar-fogo, como a alegação de que, apesar de as negociações envolverem todas as partes, uma delas não tinha intenção concreta de respeitar o cessar-fogo. Mais recentemente, Donald Trump passou a se referir ao pleonasmo de um cessar-fogo de ambos os lados (‘double-sided ceasefire’) em suas negociações com o Irã (Dewey, 2026). Apesar da urgência do cessar-fogo em barrar hostilidades e impedir novas vítimas, as camadas de negacionismo implicatório ao redor de genocídios, guerras imperiais e outros conflitos profundamente desiguais permitem que nossas atenções sejam ocupadas pelos termos da negociação imediata, enquanto maquia e normaliza o aprofundamento de um contexto colonial e imperialista geral. Para os palestinos, tornou-se evidente que a visão de túnel do cessar-fogo não somente promoveu falácias sobre a equivalência de poder e ação entre Hamas (um grupo político/armado) e Israel (um estado com enorme infraestrutura ao seu dispor), como também extraiu a situação de Gaza do contexto dos palestinos na região e na diáspora, seja com o aumento da violência de colonos israelenses na Cisjordânia ou com a obstrução do direito de retorno dos refugiados palestinos desde 1948. A consequência é o aprofundamento tanto da crise humanitária para palestinos em Gaza quanto o aperfeiçoamento dos mecanismos de opressão e limpeza étnica de palestinos em todo o território, assim como as implicações para os povos do Líbano e outros países vizinhos.
Olhando para as mudanças climáticas, um instrumento poderoso do negacionismo disfarçado de solução é a visão de túnel de carbono. Em vez de inserirmos o aquecimento global em seu contexto sistêmico, em que há ultrapassagem de limites planetários e dependência proposital do desenvolvimento de combustíveis fósseis, facilitamos um olhar reduzido às emissões de gases de efeito estufa, em especial o dióxido de carbono. Isso permite que as mesmas corporações de combustíveis fósseis que contribuíram para a crise — até mesmo as empresas que engajaram o negacionismo literal da mudança climática — se apresentem como parte da solução. Resultam, então, soluções falsas e parciais diversas, por ignorarem outras fontes de emissões ou por enfatizarem ajustes ao sistema energético no lugar de uma transição efetiva. Isso facilita o assentamento de um consenso da descarbonização e um modelo de “transição energética” de caráter corporativo que, de fato, prioriza transações comerciais e a expansão da matriz através de renováveis, do que a desfossilização real (Bringel; Svampa, 2023; Svampa, 2023). Essa visão de túnel também é prejudicial do ponto de vista social e trabalhista, pois encurrala trabalhadores dos setores que devem ser transformados, disponibilizando apenas duas opções: ou defendem a economia fóssil ou cedem ao modelo do capitalismo verde, o qual se apresenta como a única forma de garantir adesão suficiente para mitigação e adaptação mínimos, enquanto normaliza impactos planetários gerais. Ao mesmo tempo, o setor agrário segue pouco contestado por suas emissões, além de seu impacto em biomas, no uso intensivo de água e suas práticas violentas e injustas laborais. Ademais, permite que novos mercados e empresas surjam dedicados à compensação de emissões, com contabilidade questionável e a serviço da normalização da existência e até expansão de setores nocivos, pois ao menos suas emissões de CO₂ poderão ser “canceladas” por esquemas de conservação em alguma parte do mundo (Santos; Schneider, 2021). Para coroar, a visão de túnel de carbono intensifica demandas extrativas, sem que haja planejamento e cuidado necessários para evitar novas zonas de sacrifício, que são lugares de externalização de impactos tidos como necessários para o progresso e o acúmulo de capital. Isso ocorre porque materiais primários extraídos, processados e industrializados são tidos como estratégicos para a descarbonização expansiva (Fernandes, 2024), em vez de diminuir impactos ao reduzir demandas supérfluas e corrigir gargalos industriais. O objetivo de produção crescente é inquestionável, buscando-se apenas maneiras de expandir a produção com menor pegada de carbono proporcional.
Ainda sobre a pandemia, podemos alegar uma visão de túnel da vacina. Mais uma vez, uma solução imediata e certamente necessária é reduzida ao seu caráter técnico e acaba isolada da resolução da crise, que implicaria abordar responsabilidades e fatores de risco. Sabemos que a pandemia da Covid-19 se alargou pelo acesso desigual às vacinas — que em maioria foram mantidas como mercadorias lucrativas para laboratórios globais —, assim como devido ao negacionismo das vacinas, de tipo bastante calcado em teorias conspiratórias e desconfiança generalizada de autoridades, políticas e científicas. Se, para resolver essa pandemia passada, foi necessário combater o negacionismo de uma importante solução, também tivemos que lidar com uma visão de túnel que isolou essa solução do contexto geral da raiz do problema e do leque de ações a serem tomadas para enfrentar uma pandemia com justiça social. O parco olhar crítico para o risco de produção de novas pandemias, principalmente no que tange a setores produtivos como a exploração industrial e intensa de animais, evidencia que há uma visão de túnel que busca solucionar um problema imediato, mas sem adequadamente prevenir uma pandemia futura (Wallace; John; P. M., 2021).
Ao fim e ao cabo, o que vivemos é uma junção perigosa entre negacionismos que obstruem ações e negacionismos parciais que nos impedem de identificar e engajar ações que corrijam os problemas à raiz. Portanto, além de encontrar estratégias que combatam os negacionismos mais grotescos, de característica extremista e absoluta, também devemos estar alertas para desfazer os estragos de outras gradações negacionistas, especialmente na confusão gerada a respeito da raiz das crises e das soluções propostas. Se o objetivo é realmente preventivo — ou seja, evitando novos genocídios, novas pandemias e o agravamento da crise climática — faz-se necessário conectar os contextos de cada crise, recusando a normalização e o ar de incerteza dado pelos diversos mecanismos negacionistas que eventualmente tentam nos convencer de que soluções pobres, limitadas ou injustas são as únicas possíveis.
CONCLUSÃO
É esperado que consensos científicos sejam desafiados, como parte do método científico e a partir dos processos de letramento popular e democrático sobre os problemas sociais e as soluções a eles apresentadas. Já o negacionismo científico caminha na direção contrária, na zona do questionamento sem embasamento e da obstrução de ação produtiva (Gomes; Zamora, 2024, p. 6). Levar isso a sério demanda uma abordagem multiescalar e multifuncional sobre os negacionismos. É importante compreender os processos cognitivos que levam ao negacionismo, mas isso não é suficiente. Dar conta da complexidade dos negacionismos é mergulhar também nos efeitos de incerteza, que impactam a percepção, a ação e a inação até de figuras que nunca se considerariam negacionistas e certamente rejeitariam esse rótulo. Porém, se definimos o negacionismo como um movimento ideológico que distorce ou normaliza a realidade para obstruir, postergar ou desfigurar caminhos de ação e resolução concretos, concluímos que os negacionismos estão mais presentes entre nós do que gostaríamos de admitir.
Por isso, a investigação sobre as estruturas de poder por trás dos negacionismos (absolutos ou parciais) é tão essencial. Precisamos entender a quem interessa articular narrativas mentirosas sobre grandes problemas, crises e eventos, fazendo uso de várias ferramentas que geram incerteza e recusa de reconhecer a totalidade das situações. Olhando para os perpetradores que querem esconder suas artimanhas e para os observadores que emprestam legitimidade aos perpetradores quando aderem a negacionismos, percebemos que o exercício antinegacionista vai além da exposição da verdade. Isso já não é mais suficiente em um cenário em que a dúvida impera, há cacofonia nas narrativas gerais, uma crise profunda de confiança em autoridades, além da interferência de fortes vieses de confirmação.
Também é fundamental investir em letramento que gere capacidade crítica e em organização coletiva que revele os interesses e os jogos de poder que se beneficiam da manipulação da realidade. No combate às crises múltiplas de nosso tempo, é estratégico investigar como os negacionismos são operacionalizados para impedir soluções concretas e para afirmar projetos de sociedade autoritários, que propagam expressões de negacionismo para suprimir a organização de resistência e oposição. Na policrise planetária, a construção de dissenso sobre um genocídio, uma pandemia ou a mudança climática serve aos interesses de quem lucra e concentra poder, gerando e gerenciando as crises. Os grandes perpetradores sabem dos riscos que impõem à sociedade e desprezam as vítimas impactadas por suas ações, de modo que o negacionismo promovido é, enfim, um negacionismo de espólios: mascaram a realidade de destruição, desde que consigam garantir sua posse e usufruto dos espólios da catástrofe — alheia ou global.
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[1] Sabrina Fernandes é pesquisadora e escritora, com mestrado em economia política e doutorado em sociologia. Atua nas áreas de economia política das transições, justiça climática, internacionalismo, decrescimento e ecossocialismo. É autora das obras Sintomas Mórbidos (2019), Se quiser mudar o mundo (2020), além de ser responsável pela organização de novas edições de Karl Marx e Friedrich Engels no Brasil como O Manifesto Comunista (2021) e O 18 de Brumário de Luís Bonaparte (2022). Atualmente, é cientista residente do programa Cesar Lattes do Instituto de Estudos Avançados da Unicamp, além de consultora sênior de pesquisa do Centro de Tecnologia e Industrialização para Desenvolvimento da Universidade de Oxford (TIDE) e Pesquisadora Sênior de Liderança do Instituto Alameda.
