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Grupo do IdEA transforma pesquisa em série de podcasts sobre Conrado Silva e a “escuta da Música Nova”

Mesa do IdEA apresenta série de podcasts sobre Conrado Silva e propõe a narrativa sonora como forma acadêmica de pesquisa e escuta.

A segunda mesa do I Seminário IdEA apresentou um resultado que foge do formato acadêmico convencional: uma série de nove podcasts dedicada a Conrado Silva (1940–2014), figura central para a música contemporânea no Brasil e na América Latina. A apresentação, intitulada “Conrado Silva: a escuta da Música Nova”, foi conduzida pelo Prof. Dr. José Augusto Mannis, Marta de Oliveira Fonterrada e Profª. Drª Janete El Haouli, representando o grupo “Estudos do som e processos criativos”.

Desde a abertura, a mesa enfatizou o caráter experimental do trabalho, defendendo o IdEA como um espaço de liberdade intelectual para projetos “fora da caixinha” e de “linha de fuga” — entendidos ali como gesto criativo e método de investigação. A proposta assumiu a forma de uma provocação acadêmica: se o objeto é som, escuta e criação sonora, por que o resultado precisaria se limitar ao texto? O grupo, formado por 29 pesquisadores, apresentou um modelo de produção e circulação do conhecimento que toma a narrativa sonora como linguagem principal.

O ponto de partida do projeto foi o Fundo Conrado Silva, preservado na Unicamp, com documentação reunida a partir de sua doação e hoje vinculada ao acervo institucional. A mesa relatou um esforço intensivo de trabalho em curto período: em poucos meses, a equipe reuniu, organizou, digitalizou e estruturou o conteúdo para a série — finalizada literalmente na madrugada anterior ao evento, reforçando o tom de laboratório vivo que marcou o processo.

A apresentação recuperou a amplitude de atuação de Conrado Silva, descrito como um criador múltiplo, cuja influência atravessa diferentes domínios do conhecimento: música contemporânea e experimental, música eletroacústica, acústica arquitetônica, engenharia de áudio aplicada à sonorização, educação musical por oficinas e promoção cultural. Ao longo da mesa, Conrado foi apresentado como alguém que integrou arte, ciência e tecnologia sem hierarquias rígidas, tratando a acústica como matriz a partir da qual outras áreas se desdobram.

Também ganhou destaque o papel de Conrado na construção de redes e instituições: sua passagem pela Universidade de Brasília, o impacto das rupturas impostas pela ditadura, sua reorganização em São Paulo e sua atuação em espaços e iniciativas como o Núcleo Música Nova, oficinas e cursos que funcionaram como ecossistemas de criação, intercâmbio e formação. A fala pontuou ainda conexões com redes latino-americanas e com práticas colaborativas que transformaram oficinas em ambientes de experimentação e pensamento crítico.

O núcleo conceitual da mesa, no entanto, foi a “escuta” — não apenas como técnica musical, mas como ética e epistemologia. A proposta defendeu que trabalhar com áudio exige atenção à materialidade sonora, aos corpos, aos gestos e às nuances expressivas; exige também reconhecer que a escuta é plural, mutável e situada. Nesse sentido, os podcasts foram apresentados não como simples divulgação, mas como forma emergente de produção acadêmica, capaz de incorporar testemunho, emoção, pausas, silêncio, paisagens sonoras e composição — elementos frequentemente excluídos pela escrita tradicional.

Os apresentadores insistiram que, ao contrário do que se supõe, o podcast pode ter rigor acadêmico equivalente ao artigo, desde que tratado como composição cuidadosa e como tradução sonora de pesquisa. Ao enfatizar a possibilidade de “ler ouvindo”, a mesa defendeu uma ampliação dos formatos de validação e circulação do conhecimento, especialmente em áreas em que o som não é acessório, mas estrutura do objeto estudado.

O debate com o público reforçou a dimensão transdisciplinar do encontro, aproximando o tema da escuta de discussões sobre saúde mental e vida urbana, além de evidenciar o interesse de outros grupos do Seminário pela interface entre ciência, tecnologia e práticas sonoras. Ao final, a mesa consolidou o que o próprio Seminário se propõe a estimular: a circulação de ideias entre campos distintos e a produção de resultados que conectam pesquisa, formação e difusão cultural.

Assista a apresentação na íntegra no YouTube.

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