Em entrevista ao IdEA em Pauta, a professora Dra. Isabella Tardin, coordenadora do grupo Teoria da Filologia, explica como a área dialoga com diferentes campos do conhecimento e contribui para a leitura crítica da informação.
A Filologia costuma ser associada ao estudo de manuscritos antigos ou de línguas clássicas. Para a professora Tardin, do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp (IEL), essa visão é apenas uma parte de um campo muito mais amplo, dedicado à compreensão de como os textos são produzidos, transmitidos, interpretados e utilizados na construção do conhecimento.
No segundo episódio da série IdEA em Pauta, Tardin apresenta os fundamentos da Filologia, explica as atividades do grupo de estudos Teoria da Filologia, sediado no Instituto de Estudos Avançados da Unicamp (IdEA), e mostra como a área estabelece diálogos com campos como Direito, Medicina, Física, Psicologia e História.
Segundo a pesquisadora, a própria origem da palavra revela parte de seu significado. Derivada do grego, Filologia pode ser entendida como “amor ao conhecimento” ou “amor à palavra”. Na prática, porém, envolve um conjunto de atividades que vão desde a reconstrução e edição crítica de textos até sua contextualização histórica, tradução, interpretação e ensino.
“O filólogo procura compreender como um texto chegou até nós, quais escolhas foram feitas ao longo de sua transmissão e quais hipóteses sustentam essas escolhas”, explica.
Uma reflexão sobre os fundamentos da pesquisa
Além da prática filológica, o grupo Teoria da Filologia dedica-se a discutir as bases epistemológicas da área. O objetivo é investigar os pressupostos que orientam diferentes métodos de pesquisa, questionando conceitos como texto, autor, leitor, interpretação, precisão e evidência científica.
Para Isabella Tardin, refletir sobre essas premissas permite compreender não apenas como a Filologia produz conhecimento, mas também como diferentes áreas científicas constroem seus próprios métodos.
Essa perspectiva explica a proposta da série Filologia inter scientias, promovida pelo grupo, que reúne especialistas de diferentes campos para discutir aproximações metodológicas e conceituais. Ao longo dos encontros, pesquisadores têm explorado relações entre Filologia e Medicina, Direito, Física, Psicologia, Psicanálise, Arqueologia e estudos das línguas indígenas, entre outras áreas.
Durante a entrevista, a professora lembra, por exemplo, que métodos filológicos empregados na organização de manuscritos influenciaram a construção de árvores genealógicas utilizadas posteriormente pela Biologia. Da mesma forma, conceitos como interpretação, evidência e precisão atravessam tanto as Humanidades quanto as ciências naturais.
Formação crítica em tempos de excesso de informação
Outro tema abordado na conversa é a contribuição da Filologia para a sociedade contemporânea. Em um cenário marcado pela circulação acelerada de informações, a pesquisadora defende que a formação filológica oferece instrumentos para analisar criticamente textos, discursos e fontes de informação.
Segundo ela, mais importante do que acumular conhecimento é desenvolver consciência sobre os processos que produzem esse conhecimento.
“Aprendemos a perguntar de onde vem uma informação, quais são suas fontes, quais critérios foram utilizados e qual o grau de confiabilidade daquele discurso”, afirma.
Para Tardin, essa postura favorece uma leitura mais crítica das informações que circulam na internet e contribui para o enfrentamento da desinformação, sem abrir mão do rigor científico nem da consciência dos limites de cada método de pesquisa.
Um campo aberto ao diálogo
Ao comentar as atividades promovidas pelo grupo, Isabella destaca que o interesse pela Filologia ultrapassa os limites da universidade. Palestras sobre ecologia, arqueologia, tradução, psicanálise, literatura e resolução de conflitos têm reunido pesquisadores, professores da educação básica e participantes de diferentes áreas do conhecimento.
Segundo ela, esse interesse demonstra que questões relacionadas à interpretação, à linguagem e à construção do conhecimento fazem parte da vida cotidiana e podem contribuir para debates contemporâneos em diferentes campos.
Além das atividades do grupo no IdEA, a professora lembra que a aproximação com a Filologia também pode ocorrer por meio dos cursos de graduação e pós-graduação do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), dos cursos de extensão e das iniciativas de divulgação científica desenvolvidas pela Unicamp.
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