A socióloga e economista Sabrina Fernandes abriu sua residência científica com a palestra O desafio da policrise planetária e as visões de túnel que confundem os caminhos. A atividade marcou o início da programação da residência, que ao longo das próximas semanas reunirá palestras, oficinas e bate-papos em torno de temas como crise ecológica, militarismo, soberania, transição e justiça socioambiental.
Na abertura, Sabrina destacou que pensar a policrise exige mais do que observar crises isoladas. Segundo a pesquisadora, o desafio atual é compreender como fenômenos ecológicos, políticos, econômicos e tecnológicos se cruzam, se reforçam mutuamente e tornam o cenário global mais complexo. Para ela, esse é um tipo de problema que não pode ser enfrentado a partir de uma única área do conhecimento, o que reforça a importância do diálogo interdisciplinar proposto pela residência.
Ao longo da palestra, a cientista residente questionou também a maneira como a ideia de crise costuma ser tratada no debate público. Em sua análise, o que afeta o centro do capitalismo tende a ser rapidamente reconhecido como crise global, enquanto situações permanentes de violência, vulnerabilidade e exploração vividas nas periferias do mundo são frequentemente naturalizadas. A partir dessa perspectiva, Sabrina propôs uma leitura da policrise que parte das margens e considera as conexões entre mudanças climáticas, insegurança alimentar, conflitos armados, militarização e desigualdades históricas.
A pesquisadora apresentou dados e exemplos para mostrar a gravidade desse quadro. Entre os pontos destacados, mencionou o aumento dos custos globais dos desastres, o agravamento dos eventos climáticos extremos, a superação de zonas seguras em vários limites planetários e o crescimento dos gastos militares no mundo. Para Sabrina Fernandes, esse cenário revela uma lógica em que guerras, tragédias e colapsos acabam sendo tratados também como oportunidades de expansão econômica, com custos humanos e ecológicos deslocados para outros territórios e populações.
Outro eixo central da palestra foi a crítica ao que chamou de visões de túnel: abordagens que isolam problemas complexos e oferecem respostas parciais, desconsiderando as conexões entre eles. Nesse sentido, Sabrina chamou atenção para soluções que reduzem a crise climática a uma questão exclusivamente tecnológica ou de mercado, sem enfrentar temas como biodiversidade, água, uso da terra, desigualdade, autoritarismo e os impactos sociais concretos da chamada transição verde. O risco, afirmou, é transformar a transição em mera reorganização do problema, preservando estruturas que continuam produzindo destruição.
Na parte final da fala, Sabrina defendeu a necessidade de pensar respostas desde o Sul Global, recusando a normalização da catástrofe e valorizando saberes e projetos políticos formulados por povos e comunidades historicamente atingidos por essas crises. Mais do que administrar a policrise, argumentou, é preciso identificar e transformar os mecanismos que a alimentam.
A seguir, confira a íntegra da palestra de abertura da residência científica de Sabrina Fernandes pelo IdEA.
