
Da ocorrência ao conhecimento sonoro: um modelo conceitual
Resumo – Este ensaio propõe um modelo conceitual para examinar as mediações pelas quais algo que ocorre no mundo pode tornar-se objeto de conhecimento, com ênfase no domínio sonoro. O modelo distingue quatro categorias — ocorrência, manifestação, perfil adquirido e conhecimento — entendidas não como etapas rígidas ou necessariamente lineares, mas como instâncias analíticas sujeitas a sobreposições, recorrências e retroalimentações. Ocorrência designa aquilo que acontece independentemente de ser percebido; manifestação, aquilo que se torna acessível a determinado agente ou sistema; perfil adquirido, a parcela da manifestação efetivamente coletada sob determinadas condições; e conhecimento, os processos de organização, análise, síntese, associação, reconhecimento, categorização, inferência e interpretação que podem conduzir a formas suficientemente estabilizadas de compreensão. O modelo considera diferentes agentes e sistemas de aquisição sem pressupor equivalência entre suas formas de cognição ou conhecimento. Aplicado ao domínio sonoro, permite distinguir aquilo que ocorre, o que se torna acessível, o que é efetivamente adquirido e o que pode ser conhecido por meio do som e de sua escuta, oferecendo bases para examinar o sonoro como meio de conhecimento.
Palavras-chave: conhecimento sonoro; escuta; percepção sonora; aquisição sonora; mediação.
INTRODUÇÃO
Ao longo da história ocidental consolidou-se uma tradição documental predominantemente visual, na qual o conhecimento passou a ser organizado, validado e transmitido principalmente por representações visuais e simbólicas. A produção científica, jurídica, administrativa e educacional desenvolveu, nesse contexto, um amplo conjunto de formas documentais baseadas sobretudo no texto, complementado por tabelas, diagramas, mapas, gráficos e outras representações visuais. Essa tradição consolidou formas relativamente estáveis de distinguir diferentes instâncias entre aquilo que ocorre, aquilo que se apresenta ou é registrado e aquilo que pode constituir conhecimento, tornando naturais mediações que raramente precisam ser explicitadas.
Grande parte das decisões científicas, tecnológicas, administrativas e jurídicas fundamenta-se em documentação visual. Leis, pareceres, certificados, relatórios, contratos, teses e demais instrumentos institucionais são produzidos e legitimados predominantemente por registros textuais.
O ocidente tem se caracterizado por uma forte tradição oculocêntrica (Jay, 1988; Barbanti, 2026).
Contudo, o sonoro constitui uma importante modalidade de acesso ao mundo. Sua propagação multidirecional, sua capacidade de contornar obstáculos e atravessar determinados meios, sua capacidade de envolver outras modalidades sensoriais, sua dimensão temporal e sua intensa expressividade permitem perceber acontecimentos, movimentos, espaços, agentes e transformações que não necessariamente se oferecem à visão. A experiência sonora possui ainda forte poder evocativo e imaginativo: a partir de indícios frequentemente parciais, pode suscitar rapidamente imagens mentais, cenas, agentes, contextos e relações, favorecendo sínteses e combinações criativas que participam dos processos pelos quais o percebido adquire sentido. O som constitui, ainda, um notável recurso de prospecção, detecção e investigação, empregado tanto pela percepção humana e não humana quanto por diferentes dispositivos técnicos. Apesar dessas características e possibilidades de acesso ao mundo, o sonoro não alcançou, nas práticas documentais e institucionais ocidentais, o mesmo grau de reconhecimento e validação historicamente atribuído ao visual.
A especificidade epistemológica dos documentos sonoros reside no fato de que frequentemente conservam relações materiais e causais com o próprio acontecimento que representam [1]. Diferentemente das representações predominantemente simbólicas, muitos documentos sonoros preservam uma continuidade causal e material com a ocorrência que lhes deu origem. Ainda que submetidos a limitações técnicas, os documentos permanecem vinculados à ocorrência registrada por meio das próprias variações físicas que a constituíram [2]. Mesmo após processos de edição ou mixagem, esses registros constituídos por sinais similares aos registros primários, oriundos da transdução de variações de pressão, podem voltar a produzir fenômenos acústicos análogos aos originalmente registrados. Essa continuidade, entretanto, não pressupõe identidade material entre a ocorrência, seu registro e sua reprodução.
Uma gravação ambiental pode conservar simultaneamente vozes, sons urbanos e inúmeros outros acontecimentos acústicos, preservando, apesar das limitações técnicas, vínculos causais e relações de semelhança com a ocorrência registrada, mas não rigorosamente identidade material com ela [3]. Na reprodução da gravação, o fenômeno acústico produzido não é aquele que ocorreu originalmente; o documento não contém literalmente o acontecimento, mas conserva, por meio das sucessivas transduções e inscrições que o constituem, relações derivadas das variações físicas que lhe deram origem.
A representação sonora possui, em grande parte, natureza analógica (áudio 1) [4]. Isso não exclui, entretanto, importantes dimensões simbólicas. Na fala, no canto, na música, no código Morse (áudio 2) [5] há representação simbólica nas palavras do idioma, na construção musical, no ritmo do código telegráfico. Um fonograma reproduz algo que guarda forte semelhança com as ondas sonoras produzidas por intérpretes, cantores e instrumentistas. Simultaneamente, reproduz também estruturas simbólicas — a língua, a música, as frases, as entonações e demais convenções culturais que organizam esses sons. Um material sonoro pode, assim, manter simultaneamente relações analógicas com a ocorrência física e relações simbólicas constituídas por convenções culturais [6].
No texto escrito, os signos linguísticos normalmente não conservam propriedades físicas do referente que designam.
Mesmo quando organizado segundo convenções simbólicas, o registro sonoro tende a conservar maior continuidade material. No domínio visual, a representação costuma privilegiar relações figurativas ou convencionais com seu referente, enquanto o registro sonoro frequentemente preserva parte da própria manifestação física do acontecimento.
No domínio sonoro, a diferenciação entre ocorrência, manifestação, perfil adquirido [7] e conhecimento nem sempre é clara e explícita. Essas instâncias tendem a aparecer sobrepostas, permanecendo imbricadas na própria materialidade do registro. Torna-se, então, necessário distingui-las conceitualmente.
Por isso, antes de tratar da especificidade sonora, é necessário um modelo capaz de situá-la em relação a instâncias mais gerais. Apesar do problema do conhecimento sonoro aqui abordado ter origem no reconhecimento institucional e social de documentos sonoros, propõe-se em primeira instância, para facilidade de tratamento e análise, um modelo conceitual circunscrito unicamente ao processo de constituição do conhecimento [8] com ênfase no domínio sonoro, organizado em quatro categorias: ocorrência → manifestação → perfil adquirido → conhecimento (Figura 1).
Figura 1 – Modelo conceitual proposto

Não se pretende desenvolver aqui uma teoria geral do conhecimento. O propósito é mais circunscrito: propor um modelo conceitual capaz de distinguir diferentes instâncias envolvidas na constituição do conhecimento, especialmente no domínio sonoro. Ao explicitar essas mediações, busca-se tornar mais preciso o exame das formas pelas quais o sonoro pode constituir documentos, representar conteúdos e participar dos processos de constituição do conhecimento.
O MODELO CONCEITUAL
As quatro categorias propostas – ocorrência → manifestação → perfil adquirido → conhecimento – distinguem quatro níveis sucessivos pelos quais algo que ocorre no mundo pode tornar-se objeto de conhecimento. Essas categorias delimitam distintas instâncias do processo de constituição do conhecimento, mas não devem ser entendidas como estágios rígidos ou estanques: seus limites admitem certa flexibilidade de extensão e abrangência, e suas relações podem envolver sobreposições, recorrências e processos de retroalimentação.
Em uma primeira abordagem, essas categorias serão consideradas a partir de um percurso que se inicia em acontecimentos e variações físicas, passa, em seguida, pelas condições de manifestação e pelas condições efetivas de aquisição e, finalmente, alcança os processos perceptivos e cognitivos envolvidos na constituição do conhecimento. A abordagem aqui adotada delimita-se inicialmente à constituição de conhecimento a partir da experiência, sem pretender abranger, nesta etapa, outras modalidades epistemológicas, como o conhecimento a priori.
Reiteramos o que foi expresso ao final da introdução: não serão consideradas, neste primeiro momento, manifestações que possam emergir da relação com representações ou documentos previamente constituídos, como um texto, uma imagem ou um registro sonoro [9]. Essas situações serão retomadas posteriormente, quando o modelo for examinado em relação aos processos documentais e às novas mediações que estes introduzem.
Grosso modo, a ocorrência corresponde a um acontecimento, estado ou processo existente no mundo independentemente de ser perceptível ou efetivamente percebido; a manifestação designa aquilo que, proveniente da ocorrência, torna-se acessível à experiência [10], à aquisição, captação ou à observação, humana e não humana, seja por sistemas sensoriais, seja por dispositivos instrumentais; o perfil adquirido [11] corresponde ao resultado da coleta de uma parcela da manifestação por determinado sistema sensorial ou instrumental; e o conhecimento, finalmente, compreende o conjunto de processos que se inicia com a incorporação do que foi captado ou percebido, incluindo um estágio que denominamos pré-conhecimento [12], e prossegue, por ciclos recorrentes, mediante operações de identificação, seleção, análise, síntese, interpretação e compreensão, podendo, conforme o regime de conhecimento considerado, alcançar formas de justificação e validação. Seria possível, portanto, denominar esta última categoria pré-conhecimento e conhecimento; optamos, contudo, por reuni-la sob o termo mais abrangente conhecimento.
Essas categorias, ou níveis de mediação, não constituem etapas cronologicamente rígidas e permitem distinguir aspectos de ordem ontológica e epistemológica frequentemente sobrepostos nas discussões acerca do conhecimento.
DA OCORRÊNCIA
A ocorrência é empregada como uma categoria analítica destinada a designar acontecimentos, estados ou processos considerados em sua emergência, ou seja, independentemente de serem percebidos, registrados ou interpretados. Constitui a categoria mais elementar deste modelo conceitual, correspondendo ao domínio dos eventos tal como ocorrem no mundo, sem pressupor qualquer relação fenomenológica, documental ou cognitiva. Não se pretende, com isso, assumir qualquer posição metafísica específica acerca da natureza do real, mas apenas distinguir analiticamente aquilo que ocorre em sua emergência daquilo que se manifesta à experiência e pode, posteriormente, tornar-se objeto de conhecimento.
Ao adotar essa distinção, admitimos também que acontecimentos possam ocorrer independentemente de serem percebidos, observados, registrados ou conhecidos [13]. Essa possibilidade encontra respaldo na formulação tripartida do realismo transcendental de Bhaskar (1975), na qual os domínios do real (real), dos acontecimentos (actual) e da experiência (empirical) não se confundem.
No domínio empírico situam-se, assim, as experiências mediante as quais determinados acontecimentos são efetivamente apreendidos, sem que o conjunto dos acontecimentos se reduza àquilo que é experimentado.
Essa distinção oferece fundamento suficiente para admitir, neste trabalho, a ocorrência como categoria anterior às operações de aquisição, perceptivas e cognitivas que constituem os níveis subsequentes do modelo. Nesse sentido, a utilização do termo ocorrência possui aqui mais um caráter metodológico do que o de adesão a qualquer sistema ontológico específico. Sua função consiste apenas em delimitar o plano dos acontecimentos como ponto de partida da análise, distinguindo-o das mediações fenomenológicas, representacionais e epistemológicas que caracterizam os níveis subsequentes do modelo: manifestação, perfil adquirido e conhecimento.
DA MANIFESTAÇÃO
Manifestação designa a condição na qual uma ocorrência se torna acessível à aquisição, à detecção instrumental, à percepção ou a qualquer forma de observação. Enquanto a ocorrência corresponde ao acontecimento independentemente de qualquer relação perceptiva, instrumental ou cognitiva, a manifestação refere-se àquilo que desse acontecimento se torna acessível — suscetível de ser adquirido, detectado, percebido, observado ou medido.
Essa acessibilidade não depende apenas daquilo que é produzido ou emitido pela ocorrência. Entre a ocorrência e o ponto em que ela pode tornar-se acessível intervêm as condições de propagação ou transmissão, que podem transformar aquilo que proveniente da ocorrência permanece disponível (áudio 3) [14]. Distância, relação espacial entre fonte e receptor, características do meio, obstáculos, superfícies e demais condições ambientais podem produzir atenuações, reforços, filtragens, reflexões, reverberação, difração e outras transformações temporais, espectrais e espaciais [15]. A manifestação corresponde, portanto, não simplesmente ao que foi emitido pela fonte, mas à forma situada sob a qual algo proveniente da ocorrência, após essas mediações físicas, torna-se disponível a determinado agente ou sistema.
Uma mesma ocorrência pode, assim, dar lugar a manifestações distintas segundo as condições em que se torna acessível. Uma fala, por exemplo, não se manifesta da mesma maneira para um receptor situado a um metro da fonte e para outro situado a vinte metros em um ambiente fortemente reverberante. Durante a propagação, determinadas características do sinal podem ser atenuadas, reforçadas, filtradas ou temporalmente modificadas, alterando as condições acústicas posteriormente disponíveis à aquisição e podendo, no caso da fala, comprometer sua inteligibilidade potencial.
Um acontecimento vibratório pode tornar-se acessível a determinado agente — como a orelha humana ou um microfone — se estiver dentro de um âmbito sensível de frequência, intensidade e duração, seja em função dos limites da audição humana, seja em função da sensibilidade e da resposta em frequência de um microfone. Aquilo que estiver dentro dos limites de acessibilidade do agente estará disponível como manifestação; aquilo que vier a ser efetivamente adquirido constituirá, no modelo aqui proposto, um perfil adquirido. A manifestação corresponde, assim, àquilo que da ocorrência se torna acessível através de uma espécie de janela virtual, delimitada pelas condições de propagação ou transmissão, pelas condições do ambiente, pela situação relativa entre fonte e receptor e pelas condições de sensibilidade do agente ou sistema.
Nessa perspectiva, a manifestação ainda não implica nem caracteriza qualquer apreensão ou aquisição pelo agente. Trata-se simplesmente de um aparecimento sensível ou detectável da ocorrência: ela está aí e pode ser adquirida.
A manifestação corresponde, em sentido próximo à noção husserliana de Gegebenheit, àquilo que se dá ou pode dar-se à experiência (Husserl, 2006 [1913]), ampliando-se aqui o alcance dessa noção para abranger formas humanas e não humanas, sensoriais e instrumentais de acesso à ocorrência.
Neste ponto, observamos que no modelo se produzem dois recortes distintos: o primeiro, entre ocorrência e manifestação, delimitado pelas condições de acessibilidade; o segundo, entre manifestação e perfil adquirido, delimitado pelas condições efetivas de aquisição (Figura 2). Observamos também que a aquisição não designa simplesmente aquilo que atinge fisicamente um receptor, mas o processo pelo qual determinada parcela da manifestação é efetivamente coletada por um sistema sensorial ou instrumental.
Figura 2 – Modelo conceitual e níveis de mediação

DO PERFIL ADQUIRIDO
O perfil adquirido designa o resultado dessa coleta [16], e não a afecção ulterior eventualmente produzida no agente. Esta pode envolver modificações sensoriais, corporais, atencionais, afetivas ou cognitivas que ultrapassam aquilo que foi estritamente adquirido e participam dos processos subsequentes.
A constituição do perfil adquirido é condicionada, entre outros fatores, por:
- limites de recepção ou captação do sistema, considerando faixa de frequências, intensidade, resolução temporal, faixa dinâmica e demais parâmetros pertinentes;
- distância, direção e posição espacial do receptor, assim como as condições do meio, na medida em que determinam aquilo que efetivamente o alcança [17] em condições de ser adquirido;
- atuação de filtros físicos, fisiológicos ou técnicos que realizam crivagens anteriores ou concomitantes à aquisição (Figura 3 – Processos comuns);
- processos voluntários de orientação da atenção, assim como processos de captura e reorientação involuntária diante de estímulos salientes [18] [19] (Figura 3 – Processos comuns);
- mascaramentos fisiológicos ou perceptivos e formas de competição entre sinais que condicionam aquilo que permanece disponível à aquisição;
- janela temporal em que ocorre a aquisição, considerando seu início, duração e término.
Tudo aquilo que determina o resultado da coleta participa da formação do perfil adquirido; tudo aquilo que opera posteriormente sobre esse resultado pertence aos processos subsequentes.
Figura 3 – Processos comuns que podem atuar em diferentes instâncias
(Manifestação – Perfil adquirido – Conhecimento)

Na escuta humana, a formação do perfil adquirido é condicionada, entre outros fatores, pelos limites do sistema auditivo, pela situação, posição e orientação do agente receptor e pelos processos atencionais que intervêm na seleção daquilo que é coletado.
Na aquisição por microfone, o perfil resulta igualmente das condições de captação (situação), entre elas sua diretividade e orientação (posição em relação ao emissor), resposta em frequência, sensibilidade, faixa dinâmica e eventuais configurações de filtragem ou atenuação.
A distinção entre essas instâncias é analítica e não pressupõe que elas ocorram de maneira cronologicamente separada na experiência. Na percepção humana, aquisição, organização e reconhecimento podem ocorrer de maneira simultânea ou estreitamente integrada. Uma fala em língua conhecida, por exemplo, pode ser compreendida no próprio ato da escuta, sem que o agente experimente separadamente a aquisição de suas características acústicas e o reconhecimento de sua significação. O modelo distingue analiticamente, portanto, aquilo que a experiência pode apresentar de maneira integrada.
O material que constitui o perfil adquirido pode preservar diferentes tipos de relação com a ocorrência. Convém, portanto, distinguir neste ponto o caráter analógico do material adquirido das estruturas simbólicas que nele podem estar materialmente realizadas.
O caráter analógico refere-se à preservação de relações contínuas ou estruturalmente correspondentes a determinadas propriedades físicas da ocorrência. Uma fotografia, por exemplo, preserva relações geométricas e luminosas decorrentes da incidência da luz sobre um sistema fotossensível, segundo determinado ponto de vista e direção. De modo semelhante, um registro sonoro resulta da transdução das variações de pressão acústica incidentes no ponto de captação, preservando relações com sua evolução temporal, espectral e dinâmica. A analogia, portanto, não implica identidade com a ocorrência, mas a preservação de determinadas relações estruturais entre esta e o material adquirido.
Estruturas simbólicas podem igualmente estar materialmente realizadas no perfil adquirido, como ocorre com a fala, o código Morse ou outros sistemas codificados. Sua presença no material adquirido, entretanto, não implica seu reconhecimento como símbolo nem a compreensão de seu significado. Uma fala em língua desconhecida, por exemplo (áudio 4) [20], pode ser plenamente adquirida em suas características acústicas sem que seu conteúdo linguístico seja compreendido; em uma língua conhecida, ao contrário, sua significação pode ser reconhecida de maneira imediata ou automática no próprio ato da escuta. Essa imediatez fenomenológica não elimina, para fins analíticos, a distinção entre a aquisição do material e o reconhecimento de sua significação.
Resumindo, até aqui temos que a ocorrência se estabelece pelo que acontece; a manifestação, por aquilo que desse acontecimento está disponível a determinado agente receptor; e o perfil adquirido, por aquilo que dessa disponibilidade foi efetivamente coletado.
DO CONHECIMENTO
Chegando agora à última categoria do modelo, o conhecimento constitui a mais abrangente, compreendendo desde as primeiras formas de organização do perfil adquirido até formas suficientemente estabilizadas de compreensão. No caso de agentes sensíveis, esses processos podem ser atravessados pelas afecções produzidas na relação com o que foi adquirido. Tais afecções não constituem uma categoria autônoma do modelo, mas podem participar da orientação da atenção, da evocação de memórias, da formação de associações, de imagens mentais e de outras sínteses implicadas na constituição de sentido.
Entre esses extremos podem ocorrer processos sucessivos e recorrentes de análise e síntese, identificação, reconhecimento, associação, categorização, inferência e interpretação (Figura 4), sem que tais operações devam ser entendidas como etapas necessariamente lineares ou cronologicamente separadas.
Figura 4 – Manifestação – Perfil adquirido – Conhecimento

Alguns desses processos podem ser caracterizados como de pré-conhecimento, na medida em que operam sobre o que foi adquirido, organizando-o em unidades, relações e configurações, ainda sem que dessa organização resulte necessariamente um conhecimento estabilizado. Entre eles podem estar a segregação e o agrupamento perceptivo, a diferenciação entre figura e fundo, a segmentação, o completamento e o reconhecimento de regularidades e padrões, entre outras formas de organização. Tais fenômenos remetem às investigações da psicologia da Gestalt sobre organização e agrupamento perceptivo (Wertheimer, 1923; Koffka, 1935) e encontram desenvolvimentos específicos no domínio auditivo e musical nos estudos sobre análise de cena auditiva e agrupamento perceptivo do som (Bregman, 1990; Deutsch, 2013). Os processos de identificação e categorização encontram amplo desenvolvimento nos estudos sobre aquisição e formação de conceitos, sobretudo no que diz respeito ao modo pelo qual atributos e ocorrências são tratados em termos de categorias e conceitos (Bruner; Goodnow; Austin, 1956); nos estudos sobre estrutura e organização das categorias (Rosch, 1978); e nas sínteses posteriores acerca das relações entre conceitos, experiência anterior, reconhecimento e categorização (Murphy, 2002).
Essas operações podem ocorrer de maneira extremamente rápida e mesmo sem reflexão deliberada, oferecendo configurações sobre as quais podem incidir processos subsequentes de análise, comparação, classificação, interpretação e compreensão.
A partir dessas primeiras configurações desenvolvem-se processos recorrentes de análise e síntese pelos quais aquilo que foi adquirido pode ser sucessivamente decomposto, relacionado, reorganizado, confrontado com experiências anteriores e interpretado. Tais processos não seguem necessariamente uma direção única: configurações provisórias orientam novas análises, cujos resultados podem, por sua vez, modificar as sínteses anteriormente constituídas.
A memória pode participar desses processos tornando novamente disponíveis elementos anteriormente adquiridos, integralmente ou de maneira fragmentária, que podem então ser relacionados às configurações presentes. Essa atuação não se reduz à simples recuperação do que foi armazenado: aquilo que é lembrado pode resultar de processos de reconstrução e reorganização (Bartlett, 1932; Schacter; Norman; Koutstaal, 1998). Uma configuração presente pode, por exemplo, evocar uma ocorrência anteriormente vivenciada, mas também apenas alguns de seus elementos — uma relação, uma característica, uma sequência ou um fragmento — que passam a estar disponíveis para os processos em curso.
A possibilidade de que elementos resultantes de processos anteriores sejam retomados, decompostos e reorganizados em novas sínteses dá continuidade a uma questão já abordada, no domínio da criação musical, em Mímesis de Mímesis, ao tratar, na terminologia empregada naquele trabalho, dos ciclos recorrentes de aquisição (percepção), análise e síntese (Figura 5) e da reutilização de elementos anteriormente assimilados em novas construções (Mannis, 2014).
A formulação de hipóteses pode envolver processos inferenciais pelos quais, diante de determinadas configurações, são propostas explicações ou relações possíveis, sem que sua formulação implique ainda sua demonstração ou validação. Na inferência abdutiva, tal como formulada por Peirce em 1903, parte-se da observação de um fato ou configuração que requer explicação e considera-se uma hipótese que, se fosse verdadeira, poderia explicá-lo. Diante de um efeito observado, por exemplo, pode-se conjecturar uma possível causa; diante de uma regularidade, uma relação capaz de explicá-la. A hipótese apresenta-se, assim, como uma possibilidade a ser posteriormente examinada, e não como uma conclusão já demonstrada (Peirce, 2000, p. 220–221, CP 5.171–5.172).
Figura 5 – Processos recorrentes de aquisição (percepção), análise e síntese

Procedimentos heurísticos podem, por sua vez, orientar a descoberta e a resolução de problemas mediante raciocínios provisórios e plausíveis (Pólya, 1945, p. 112–113). Um procedimento heurístico procura um caminho possível: recorrer a uma analogia, decompor o problema, procurar casos semelhantes, reformular a questão, entre outras possibilidades. Orienta, assim, a procura de uma solução por caminhos considerados promissores, sem garantir antecipadamente que conduzirão a uma solução correta. Essa orientação torna-se particularmente relevante em situações complexas, nas quais examinar todas as possibilidades pode ser fastidioso, senão inviável, sendo necessário selecionar apenas alguns dos caminhos a explorar. Nesses casos, procedimentos heurísticos podem orientar essa seleção, reduzindo o espaço de possibilidades a ser examinado. Entre essas estratégias, destaca-se a análise meios-fins (means-ends analysis), que considera a diferença entre a situação presente e a situação desejada e procura operações capazes de reduzi-la, orientando a busca em direção ao objetivo (Newell; Simon, 1972, cap. 14).
Os elementos assim disponibilizados podem, por sua vez, ser reconstruídos total ou parcialmente, decompostos, relacionados e reorganizados nos processos subsequentes, participando da constituição de novas associações, relações e sínteses.
Nesse domínio podem intervir memória, associação, reconhecimento, categorização, inferência e formulação de hipóteses, assim como procedimentos heurísticos. Quando pertinente à natureza do objeto e de sua significação, podem intervir também processos hermenêuticos, nos quais a compreensão envolve a interpretação de sentidos em relação a determinados contextos (Ricœur, 1976).
As operações aqui descritas não são consideradas, a priori, exclusivas da cognição humana. Processos como aquisição, segmentação, comparação, reconhecimento de padrões, classificação, associação, seleção e inferência podem ocorrer em organismos não humanos e, sob diferentes formas, ser executados por sistemas instrumentais ou computacionais. Outros agentes podem ainda ser reconhecidos como participantes desses processos segundo diferentes sistemas de conhecimento, práticas e contextos culturais. A identificação ou atribuição dessas operações não implica, contudo, equiparar a cognição, a compreensão ou o conhecimento dos diferentes agentes ou sistemas envolvidos, nem pressupor que esses termos tenham para todos eles o mesmo sentido que assumem quando referidos a agentes humanos.
No interior da categoria abrangente aqui denominada conhecimento, esses processos podem conduzir a formas suficientemente estabilizadas de compreensão. Essa estabilização não significa imutabilidade nem exige necessariamente procedimentos formais de justificação, verificação ou validação.
Uma compreensão pode constituir conhecimento para determinado agente e permanecer aberta à revisão, ao aprofundamento ou à reformulação diante de novas aquisições, experiências ou interpretações.
Em determinados domínios, entretanto, especialmente científicos, jurídicos, técnicos e institucionais, a constituição individual ou situada de uma compreensão não é suficiente para que esta adquira reconhecimento coletivo. Nesses casos intervêm processos adicionais de explicitação, confronto, verificação, justificação e validação intersubjetiva, pelos quais determinada compreensão pode alcançar reconhecimento e aceitação social ou institucional.
A suficiência de uma compreensão é relacional: uma compreensão é suficiente para alguma coisa, em determinadas condições e para determinado agente ou comunidade. O reconhecimento de uma voz, por exemplo, pode constituir conhecimento suficiente em uma situação cotidiana, mas ser insuficiente como prova pericial; uma regularidade acústica percebida pode ser suficiente para orientar uma ação, mas insuficiente para sustentar uma afirmação científica.
CONCLUSÃO
O percurso desenvolvido neste ensaio procurou distinguir operações que, na experiência cotidiana, frequentemente se apresentam de maneira contínua e quase indistinta. Separar conceitualmente ocorrência, manifestação, perfil adquirido e conhecimento não significa afirmar que entre elas existam fronteiras rígidas ou uma sucessão necessariamente linear, mas tornar observáveis diferentes mediações pelas quais algo que ocorre pode tornar-se acessível, ser adquirido e participar da constituição do conhecimento.
Essa distinção mostra que aquilo que se conhece não corresponde necessariamente à totalidade da ocorrência, nem mesmo à totalidade de sua manifestação. Entre o que ocorre e o que pode vir a ser conhecido sucedem-se recortes: determinadas propriedades tornam-se acessíveis a certos agentes ou sistemas, apenas parte delas é efetivamente adquirida, e o que foi adquirido pode ser organizado, relacionado, confrontado com experiências anteriores, analisado, interpretado e integrado a processos recorrentes de compreensão. Diferentes agentes, sistemas de aquisição, condições de observação e modos de processamento podem, portanto, constituir conhecimentos distintos a partir de uma mesma ocorrência, sem que essa diversidade implique necessariamente contradição entre eles.
No domínio sonoro, essas distinções adquirem particular importância. O som não oferece simplesmente um objeto acabado à escuta: aquilo que se torna audível depende da ocorrência que o produz, das condições de propagação e manifestação, da posição e das capacidades de quem ou do que o adquire e dos processos pelos quais o adquirido é posteriormente organizado e compreendido. Escutar, registrar, medir, reconhecer, comparar e interpretar um fenômeno sonoro correspondem, assim, a operações distintas, ainda que possam ocorrer de maneira articulada e recorrente.
O modelo proposto não pretende estabelecer uma teoria geral do conhecimento nem determinar a priori quais agentes ou sistemas podem conhecer. Procura oferecer um quadro conceitual suficientemente aberto para acompanhar diferentes percursos entre ocorrência e conhecimento, distinguindo aquilo que se encontra disponível daquilo que é efetivamente adquirido e aquilo que, a partir daí, pode tornar-se compreensível. A suficiência desse conhecimento permanece relacional: depende do que se pretende conhecer, das condições em que isso ocorre e das exigências próprias de cada situação, agente ou comunidade.
Essas distinções oferecem, finalmente, uma base para examinar com profundidade o domínio sonoro como meio de conhecimento.
Um registro não restitui a ocorrência da qual se originou, mas preserva determinados traços de um perfil adquirido de sua manifestação, constituído sob condições específicas. Quando reproduzido, esse registro participa de uma nova ocorrência acústica, submetida a novas condições de manifestação e aquisição e, portanto, à constituição de um novo perfil adquirido (áudio 5) [21].
Pensar o sonoro a partir dessas mediações permite, assim, interrogar não apenas o que está vinculado a ele, mas também o que, por meio dele, pôde tornar-se acessível, o que foi efetivamente adquirido, o que permaneceu de fora e o que pode ser conhecido a partir dele e de sua escuta.
[1] Princípio da transdução: passagem da energia entre domínios acústico, mecânico e elétrico (Kinsler et al., 2000)
[2] O fenômeno acústico como perturbações mecânicas se propagando em um meio material produzindo variações de pressão, densidade e velocidade das partículas (Pierce, 2019).
[3] Embora técnicas de aquisição sonora imersiva multicanal busquem reconstruções espaciais e perceptivas progressivamente mais fiéis, isso não implica identidade material com a ocorrência original.
[4] Áudio 1 – Registro de ocorrências sonoras naturais: exemplo de relações analógicas. https://drive.google.com/file/d/18rz2DuOqLdySZoRvknQGXDewBWY6W2iA/view?usp=sharing
[5] Áudio 2 – Código Morse: -. — / -.-. — -.. .. –. — / — — .-. … . / …. .- / .-. . .–. .-. . … . -. – .- -.-. .- — / … .. — -… — .-.. .. -.-. .- (Tradução: No código Morse há representação simbólica.) https://drive.google.com/file/d/1BSsJFMIcBVHC1ryFAMBmLwfAR46xf9vz/view?usp=sharing
[6] O registro sonoro pode ser entendido, sob determinado aspecto, como indexical por sua gênese causal, apresentar relações icônicas por semelhança e carregar estruturas simbólicas convencionais (Peirce, 2000, p. 52-53, CP 2.247–2.249)
[7] Aquilo que da manifestação é efetivamente adquirido.
[8] Portanto, não consideraremos nesta etapa aspectos que dizem respeito especificamente a documentos sonoros em si.
[9] Uma vez constituído, um documento pode participar de uma nova cadeia de ocorrências, manifestações, aquisições e processos cognitivos. Seu acesso — pela leitura, escuta ou outras formas de consulta — estabelece novas condições físicas e perceptivas: a reprodução de um registro sonoro, por exemplo, produz uma nova ocorrência acústica, enquanto a leitura de um texto envolve uma nova relação perceptiva com sua configuração visual. Desse modo, documentos já constituídos podem dar origem a novas manifestações e perfis adquiridos, posteriormente implicados na constituição de conhecimento.
[10] Aqui, “acessível à experiência” não significa necessariamente percebido, mas passível de percepção, detecção, aquisição ou registro.
[11] A noção de perfil adquirido parte do princípio de que uma manifestação não é necessariamente adquirida em sua totalidade: aquilo que dela é efetivamente coletado depende das características do sistema de aquisição e das condições em que esta ocorre. No âmbito perceptivo, Husserl (2006 [1913]) e Merleau-Ponty (2018 [1945]) mostram que aquilo que se oferece à percepção não se apresenta integralmente de uma só vez, mas segundo aspectos, perfis e perspectivas relacionados às condições perceptivas, corporais e atencionais. O modelo aqui proposto toma essa condição de acesso parcial como referência, estendendo-a, sem estabelecer equivalência, aos processos instrumentais de aquisição.
[12] Denominamos pré-conhecimento o estágio inicial do processo de constituição do conhecimento, no qual uma configuração de sentido começa a emergir a partir do percebido, anteriormente à sua identificação estabilizada, à validação racional ou à formulação de um juízo.
[13] Aquilo que existe e os mecanismos reais não se confundem com aquilo que se atualiza nem com aquilo que é empiricamente experimentado (Bhaskar, 1975).
[14] Áudio 3 – Ponto de gravação fixo: a fonte da fala ocupa três posições em relação ao microfone: (a) próxima; (b) média; (c) distante. A fala é a mesma, mas a distância e a interferência do ambiente alteram a configuração acústica da manifestação disponível ao receptor. https://drive.google.com/file/d/10V9sfi3pCeizew9Dg7kolOzp9XCcm9wU/view?usp=sharing
[15] Atenuação geométrica pela distância; absorção pelo meio; filtragem espectral; reflexão e reverberação; difração e sombra acústica por obstáculos; refração; espalhamento; transmissão através de materiais ou entre meios; interferência e superposição; alterações temporais e, quando pertinente, movimentos relativos de fonte, meio ou receptor.
[16] A coleta é aqui considerada em relação às condições de aquisição e às crivagens que nela intervêm e determinam seu resultado.
[17] A posição relativa entre fonte e receptor participa da configuração situada da manifestação e, simultaneamente, das condições efetivas de formação do perfil adquirido. No primeiro caso, determina o que se encontra disponível no ponto de recepção; no segundo, em articulação com a orientação, a sensibilidade e a configuração do sistema, condiciona aquilo que é efetivamente coletado.
[18] Como ocorre no own-name effect, associado ao cocktail party effect (Cherry, 1953; Moray, 1959).
[19] Ainda que a atenção seja, em sua natureza, um processo cognitivo, sua atuação pré-captação — orientando ou capturando o que se torna disponível à aquisição — é aqui considerada entre as condições de formação do perfil adquirido, e não da categoria conhecimento, que compreende os processos que operam sobre aquilo que já foi adquirido. Uma mesma capacidade cognitiva pode, portanto, participar de diferentes categorias do modelo (processos comuns) conforme o momento em que atua na cadeia ocorrência-conhecimento, e não em função de sua natureza intrínseca.
[20] Áudio 4 – Fala em idioma fictício ou desconhecido. https://drive.google.com/file/d/1mwbftk4AAKcMeLeVcSjRw61a8ZPDrwlk/view?usp=sharing
[21] Áudio 5 – Fala gravada na condição apresentada no Áudio 3(a), seguida pela reprodução da mesma gravação por um fone de ouvido posicionado fora da cabeça. O material é o mesmo, mas é transformado pelas novas condições de mediação. https://drive.google.com/file/d/1hQkLOHK8r_TqU98La2r12VNMpUylYZqA/view?usp=sharing
REFERÊNCIAS
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