Masculinidades contemporâneas. Construção, desconstrução e reconstrução conservadora. Abordagens interseccionais [1]
Resumo – Este artigo utiliza um enquadramento teórico que incorpora as ferramentas da psicanálise, da saúde coletiva e dos estudos de gênero para refletir, a partir de uma abordagem interseccional, sobre os desafios das masculinidades atuais. Analisa os modos de construção do modelo de masculinidade hegemónica, as suas nuances na articulação com a classe, a raça e a geração, a proposta de desconstrução e a apropriação autoritária do mal-estar atual, as suas razões e os seus pontos de fuga.
Palavras-chave: masculinidades; psicanálise; saúde coletiva; interseccionalidade.
INTRODUÇÃO
As masculinidades estão novamente em cena, tanto por razões clínicas como por razões sociais e políticas. E talvez seja hora de uma abordagem que mude a perspectiva e adote uma nova estratégia em relação a elas. Trabalho com este tema desde os anos 1990, altura em que abordei os motivos subjetivos gerados pela maior vulnerabilidade coronária masculina. Nesse estudo (Tajer, 2009), identifiquei como os conteúdos do narcisismo do gênero masculino tradicional faziam parte da construção da vulnerabilidade coronária nos homens, o que explicava, em parte, a sua menor esperança de vida em sociedades como as nossas. Percebi que a subjetivação baseada no imperativo de ser os melhores e mais bem-sucedidos, à custa da autoconservação, era, por sua vez, uma construção difícil de desmontar, na medida em que o que aumenta a sua autoestima e pelo que são simultaneamente valorizados socialmente é o que lhes causa maior vulnerabilidade e risco de vida. Mas como o trabalho de campo no qual se baseia essa investigação foi realizado entre os anos de 1999 e 2003, após a primeira onda neoliberal, também pude registrar o impacto de não conseguir atingir os valores de ser provedor. Assim, para vários deles, a vulnerabilidade não se baseava apenas na competitividade, proposta identitária para os homens dos setores médios para cima, mas também na incapacidade de alcançar os valores da provisão econômica proposta para as masculinidades de todos os setores sociais.
Nesse trabalho, já havia uma distinção por classe nos modos de subjetivação masculina, mesmo na modalidade tradicional, com o que já se vislumbrava a necessidade do que hoje chamamos de uma visão interseccional. No entanto, o conceito de masculinidade hegemônica era onde se colocava maior ênfase, portanto, apostávamos em intervenções que possibilitassem a desconstrução da própria e (Fernández, 2000), mesmo quando percebíamos que a pertença a uma classe subalterna construía outro modo de subjetivação masculina que uma masculinidade constituída numa classe hegemônica. De fato, nesse texto, mostro em detalhe como isso se evidencia na manifestação desigual da hostilidade, mais voltada para dentro e explosiva para fora nos homens dos setores populares e com maior mediação, cálculo e estratégia nos homens dos setores mais abastados (Tajer, 2009).
Acredito que hoje nos cabe trabalhar para avançar nessa linha e temos mais ferramentas teóricas para fazê-lo a partir de uma concepção híbrida da masculinidade (Ayouch, 2020). Não podemos continuar a abordá-la apenas a partir da hegemonia e, claro, também não a partir da vitimização. Considero que o conceito de interseccionalidade na sua articulação com o campo da psicanálise é uma boa abordagem para ver e identificar as coordenadas de cada pessoa em relação aos eixos que conferem hegemonia e aos eixos que geram desigualdade, tanto em termos de condições de vida como de produção do psiquismo e suas articulações. O que torna uma análise interseccional é a adoção de uma forma interseccional de pensar o problema da igualdade e da diferença e sua relação com o poder. Esta concepção – conceber as categorias não como distintas, mas como sempre permeadas por outras categorias, flutuantes e mutáveis, sempre em processo de criação por dinâmicas de poder. E isto também implica não pensar os eixos de poder como categorias estáticas, mas posicionais, situacionais, relacionais e dinâmicas (Belkin, 2020).
Em termos de estratégia clínica e de interpelação ética, permite-nos trabalhar para identificar as desigualdades sentidas ou auto-percebidas ou, neste caso, a dor de cada homem. “Entrar” clinicamente pelo híbrido ou pelo não hegemônico de cada homem em particular, “aquilo” que permite construir algo da ordem da empatia pelo semelhante (Bleichmar, 2011). Seguindo o traçado de como o gênero, a raça (Ayouch, 2025), a classe, a geração, a geolocalização e a orientação sexual constituem o psiquismo, na trama particular dessas coordenadas em cada um. Se nos perguntarmos sobre as mudanças nas masculinidades nos últimos tempos, podemos localizá-las no envolvimento dos homens nas tarefas de criação e no exercício da paternidade. Práticas mais baseadas na proximidade, no apego e na participação direta. Ao contrário dos modelos tradicionais de distância, provisão, castigo e “exercício da lei” que receberam como modelo de seus próprios pais (Alkolombre, 2023) e que, em termos teóricos e clínicos, foram tomados como modos universais em certas versões da psicanálise que o formularam com o conceito de “função paterna”. Universalidade caracterizada como “a solução paterna na psicanálise”, que tem sido questionada em profundidade por alguns autores (Tort, 2008) (Blestcher, 2021).
Também se registram mudanças em relação ao mandato da heteronormatividade. Cada vez mais homens afastam-se da proposta de que, para ser homem, é preciso desejar uma mulher e habilitam publicamente os seus desejos preferenciais por outros homens, ou a sua flexibilidade desejante por homens, mulheres e pessoas não binárias (Reitter, 2018).
Onde houve menos mudanças nas masculinidades foi nas relações sexuais afetivas com as mulheres. E isso, possivelmente, tem a ver com o fato de que a heterossexualidade que conhecemos até agora é uma heterossexualidade baseada no domínio. O que vemos nesses vínculos é, do lado masculino, uma forte tensão entre os aspectos desejantes forjados na desigualdade e na denegrição do objeto erótico e os ideais do eu com argumentos mais igualitários. Em trabalho anterior (Tajer, 2020), investigo esses fenômenos também nos conflitos ao nível da conformação do eu e proponho que um dos impactos da constituição psíquica masculina ligada aos ideais da masculinidade hegemônica também se coloca nesse nível no campo da vinculação sexual afetiva com as mulheres. Lá podemos observar que as mulheres não entram no campo do semelhante. E isso não se deve à impossibilidade psíquica de entrada de outro na psique como semelhante, mas sim aos processos de desigualdade social, as desiguais não entram na psique com o mesmo estatuto social que os pares masculinos. Isso fica evidente em situações em que se jogam lealdades e se demonstram altos valores éticos entre homens e a não consideração da mesma forma em relação às mulheres.
Um exemplo de como esses fenômenos operam no cotidiano é o desaparecimento após um encontro sexual ou amoroso no qual podem ter se divertido, mas não têm interesse em continuar. Nesses casos, os homens desaparecem. Quando questionados sobre o motivo, eles dizem que é porque “as mulheres sempre se apaixonam e querem mais, e preferem não ter que dar explicações”. Explicações que dariam em outras circunstâncias, por exemplo, a um amigo ou num trabalho do qual já não querem fazer parte. Ou seja, gastariam o seu tempo a dar explicações às pessoas que importam e não gastariam o seu tempo a dar explicações às pessoas que não importam e que podem descartar porque são substituíveis (Fabbri, 2021). As mulheres no campo do sexo afetivo, por razões de heterossexualidade dominante, não importam e são substituíveis. Elas importam (um pouco mais) como amigas, mães, filhas ou colegas de trabalho. Mesmo quando são amadas, podem ser protegidas enquanto o são, mas não em situação de paridade, mas sim de tutela. Ultimamente, começou-se a falar de heteropessimismo (Seresin, 2019), definido como uma desfiliação performativa da heterossexualidade, geralmente expressa como arrependimento, vergonha ou desesperança diante da experiência heterossexual por parte das mulheres, por perceberem que os homens de seus parceiros históricos “não têm remédio”. Tema que tratei num artigo em que descrevo as atuais fluidezes sexuais-afetivas das mulheres, que caracterizo como “anfíbias” (Tajer, 2021).
Longe de iludir um atual pós-patriarcado, seria mais adequado falar das formas atuais que o patriarcado assume, incluindo a sua resposta ao avanço do feminismo de massas. E também acredito que se diluiu a bolha da possibilidade de uma “aldeia feliz uni genérica” no que diz respeito ao vínculo e ao afeto. As novas direitas ferozes “espetaram” o balão dessa ilusão coletiva. Uma vez que nos demonstrou que se pode prescindir dos homens como parceiros ou companheiros sexuais, mas não deles como vizinhos, filhos, colegas de trabalho e concidadãos. Não nos resta, então, outra possibilidade senão estabelecer um novo diálogo com as masculinidades, no social e no clínico.
CONSTRUÇÃO
Muito se tem dito e escrito até agora sobre a masculinidade hegemônica. Em termos clínicos, ela geralmente aparece como egossintônica: Eu sou assim! Eles geralmente não procuram ajuda por vontade própria. São “levados” ou “mandados” porque não aguentam mais. Ou procuram ajuda porque temem perder um vínculo ou uma situação que é importante para eles e que é alguém que sofre por causa deles. Se fosse só por eles, não mudariam. Porque têm a expectativa de que os aceitem como são, que os suportem. É preciso suportá-los e é isso que hoje está precisamente em crise, já não há quem esteja disposto a suportá-los. E é muito possível, também através dos novos modelos de subjetivação permeados pelo neoliberalismo das mulheres e dissidências que já não têm tecnologia subjetiva, mesmo que quisessem, para suportá-los.
A subjetivação da masculinidade hegemônica atua como um traço de caráter hostil e configura-se ao nível da psicogênese por identificação com os traços hostis dos pais homens. Como forma de apego a eles. De pais pouco presentes, exceto pela hostilidade. O que gera grandes ambivalências pelo sofrimento, mas, ao mesmo tempo, coexiste com uma identificação com o traço daquele que faz sofrer. São socio-distônicos e egossintônicos (incomodam os outros, mas não a si mesmos). Em todo caso, não é um sofrimento direto, porque gera sofrimento indireto, quando a pessoa que é prejudicada abandona o vínculo ou não quer vê-lo. Costumam ser como um sintoma para os outros. O patológico (ou o sofrimento) é a fonte de mal-estar para o ambiente. E é importante entendê-lo não a partir de uma ideia e de controle social, mas de que tratamos as pessoas não apenas por seu próprio mal-estar, mas também pelo que causam aos semelhantes.
As subjetividades masculinas constituídas em relação à hegemonia que lhes proporciona o patriarcado geram custos de mal-estar excedente nas outras pessoas, mas também têm custos nos próprios homens. E aparecem de forma egossintônica na maioria dos casos, tal como as caracteropatias. Fazem mais barulho para as outras pessoas do que para os próprios sujeitos (Wainer, 2021). [2]
DESCONSTRUÇÃO
O que é a desconstrução da masculinidade hegemônica? É um conceito que as militâncias feministas e LGTTBI+ [3], mas não os estudos acadêmicos no campo das masculinidades, tomaram de Jacques Derrida. Derrida trabalhou-o no campo da filosofia e da análise literária. O sentido do conceito é discutir se os significados propostos são os únicos possíveis que podem incluir essas palavras ou se é possível sair da unidade fechada de significado. Neste caso, se falamos de masculinidade ou de masculinidades. Questiona-se se existe uma única forma de ser homem. E questiona-se se poderia haver uma formulação mais plural e inclusiva. Para que possa haver diferentes modos pelos quais alguém possa ser incluído nessa categoria. Os movimentos feministas e LGTTBI+ consideraram este conceito fértil para estabelecer uma interpelação às masculinidades hegemônicas: há uma necessidade de ligação para que estas mudem. Reiteramos que o conceito de desconstrução não provém, nestas questões, do conhecimento técnico ou acadêmico, mas sim dos conhecimentos populares [4]. No nosso campo, pudemos adotá-lo e formulá-lo muito cedo (Fernandez, 2000), ao propor que, na clínica psicanalítica com perspectiva de gênero, o trabalho em relação às desigualdades não era igual ao que faziam aqueles que detinham a hegemonia. Diferença na estratégia clínica que ficou plasmada na frase “construção da autonomia nas mulheres e desconstrução da hegemonia nos homens”. Essas estratégias têm suas nuances, potencialidades, contradições e limites, tanto no campo clínico quanto na vida cotidiana.
No campo da vida cotidiana, essa interpelação trouxe desconfortos às masculinidades, pois elas tentam mudar as regras do jogo. Houve um aumento dos desconfortos dos homens como resultado da democratização das mesmas (Tajer, De la Sovera, Lavarello, 2020). Antes do desafio colocado pelo feminismo de massas pós #NIUNAMENOS na Argentina ou pelo #MeToo internacional, os desconfortos estavam distribuídos principalmente entre as pessoas em situação de desigualdade: mulheres e população LGTTBI+. Inconvenientes baseados numa série de desigualdades que têm efeito no tratamento e na vida cotidiana, que podem ir desde as situações mais graves: a violência baseada no gênero e sua face mais atroz, o feminicídio. A situações “intermediárias”, como assédio ou insistência sexual sem reciprocidade, muitas delas baseadas em diferenças hierárquicas, além das genéricas (chefes, líderes, pessoas com mais experiência, fama ou dinheiro, entre outras), o que dificulta a sua denúncia devido à desigualdade no valor da voz e da palavra de cada um. E de situações mais cotidianas, chamadas de micromachismos [5] pelas quais há: um uso desigual do tempo livre e do lazer, um uso desigual do dinheiro, uma infantilização das mulheres através da explicação de conceitos que elas dominam perfeitamente, sem se darem ao trabalho de verificar [6], fazer as mulheres duvidarem da sua própria percepção [7], prolongar-se de forma desigual no uso da palavra, ser mais cuidadores do que cuidadoras, entre outras. Tudo isso acontece, na maioria dos casos, sem vontade explícita e sem consciência dos homens sobre esses atos e seus efeitos. E acontece pela interiorização da desigualdade nos processos de subjetivação. O que inclui uma atitude tutelar em relação às pessoas desiguais, neste caso, as mulheres, para com as quais se estabelece uma espécie de “mentoria”.
Autores que trabalham o impacto da racialização no psiquismo utilizam o conceito de branquitude para se referir às pessoas que a possuem como pessoas para as quais a raça nunca foi um problema (Ayouch, 2025). Podemos fazer uma analogia com esses desenvolvimentos e apontar que o mesmo acontecia até recentemente com a masculinidade como gênero. Eram pessoas para as quais, até recentemente, o gênero não tinha sido um problema, nem tinha sido questionado, nem havia qualquer perceção de que o possuíam, nem que possuí-lo pudesse ter alguma conotação negativa, o que começou a acontecer com a democratização dos desconfortos: muitos homens começaram a identificar que também eles eram generizados. Há colegas que criticam o alcance do uso do conceito e da estratégia de desconstrução da hegemonia masculina (Vainer; Barzani, 2025). Caracterizam a subjetivação patriarcal da subjetividade masculina como submissão e apontam os limites da desconstrução no fato de ser ela própria uma operação fundamentalmente no campo da linguagem e que não leva em conta outros espaços/registros de construção da subjetividade. Para isso, utilizam o conceito de corposubjetividade (Carpintero, 2015) para dar conta da imbricação entre o subjetivo, o corporal e o social na constituição dos processos identitários generizados. Portanto, eles descobrem que sua desmontagem no campo do psíquico tem diferentes níveis de intervenção. E propõem que parte da mudança reside na materialidade das práticas coletivas e no envolvimento corpo a corpo. Podemos concordar com essa afirmação no sentido de que, efetivamente, a recepção da interpelação foi feita principalmente de forma individual e defensiva, com medo de ser exposto ou cancelado pelo passado. Muitos sabiam que tinham feito coisas erradas e que as fizeram porque podiam. Por posição dominante no gênero (Tajer, 2019). E muito provavelmente aqueles que levaram isso a sério, em sua maioria, não sabiam o que fazer, poucos entenderam o objetivo da desconstrução, ficaram sem encontrar modelos identificatórios valiosos dos quais pudessem se servir e sem poder se oferecer como modelos a serem seguidos pelas novas gerações. Em síntese, sem poder fazer o trabalho de reconhecimento mútuo com outros com quem construir uma genealogia de homens em fuga do pacto patriarcal. Faltou claramente, salvo em alguns casos, a construção coletiva de alternativas. De qualquer forma, não creio que seja apenas um problema conceitual se a desconstrução serve ou não. Ou se a corposubjetivação explica melhor, como propõem os autores. Acho que o essencial é que esse é um trabalho que os homens devem assumir como próprio. Ninguém pode fazer essa tarefa por eles. E deve ter as palavras e os dispositivos próprios que permitam ser compreendidos e consigam comovê-los e agrupá-los. Não se pode fazer isso de fora. E as palavras, ações e estratégias que conseguirem isso serão as melhores.
RECONSTRUÇÃO CONSERVADORA
Esses mesmos autores referem-se à crise atual das masculinidades em duas coordenadas: a) que a subjetivação dentro do modelo da masculinidade tradicional dificulta-lhes processar a pulsão de morte de forma não prejudicial para si próprios e para os outros e que b) simultaneamente, o neoliberalismo retirou a possibilidade de contar com um espaço-suporte da pulsão de morte (Vainer; Barzani, 2025). E eu acrescentaria que as mulheres atuais, por meio do feminismo (e das dificuldades de nossos próprios processos de subjetivação para a conquista no neoliberalismo), nos afastamos (ou já não sabemos exercer) do lugar de amortecedoras e tradutoras da afetividade masculina (Tajer, 2009).
O que nos coloca diante de um coquetel explosivo, dado que o hostil desligado se torna como veneno para eles mesmos e também, eles inoculam aos outros. Portanto, esse mal-estar excedente com o qual eles não sabem como lidar se traduz em:
- recrudescimento da violência contra aqueles que são considerados subordinados: mulheres, crianças, população dissidente;
- e/ou autodestruição: consumos problemáticos, acidentes, suicídios, homicídios, infartos e acidentes vasculares cerebrais (AVCs).
Outra autora (Fridman, 2023) apresentou como essa violência ocorre nesta etapa neoliberal sob o formato do empreendedorismo. Na verdade, ela denomina esses indivíduos como empreendedores do ódio. Ela aponta para a atual mudança do tecnocapitalismo (Varoufakis, 2024) para a promoção de um modelo de autonomia radical que implica a imposição do próprio desejo totalmente desvinculado do outro como sujeito. E, segundo esta autora, o cocktail é composto por: onipotência, desligamento dos laços sociais e a crise de desintegração das instituições histórico-sociais que sustentam a psique. Por tudo isso, aponto a necessidade de estabelecer novas estratégias diante do mal-estar das masculinidades. Aquelas que infringem e aquelas que se autoinfringem.
Muito tempo foi perdido, e quem ganhou foram aqueles que falam coletivamente aos homens desesperados, perplexos e desligados (fundamentalmente os mais jovens): a extrema direita. Eles propõem o retorno a um suposto paraíso perdido no qual eles eram importantes e dizem que as mulheres e as dissidências lhes tiraram o lugar. Não percebem que é o capitalismo concentrado que já não tem lugar para eles na sua proposta de valor como homens trabalhadores e provedores. Não há condições materiais para a sustentabilidade e o investimento destes projetos [8]. Sabemos que, infelizmente, essa ilusão dos jovens homens se voltará contra eles, pois um modelo global que aponta para a guerra, a desigualdade e a concentração da riqueza precisa desses corpos descartáveis de jovens para serem os soldadinhos que colocam o corpo para defender os interesses dos ultra-ricos. Portanto, é preciso pensar numa saída solidária e fortalecedora do vínculo social para o mal-estar dos homens, revelando os fios da apropriação fascista do mesmo.
O QUE FAZER?
No campo da psicanálise, a abordagem mais fecunda para essa interrogação é por meio do conceito de interseccionalidade [9] (Belkin; White, 2020). A partir dessa perspectiva, que já está a começar a ser trabalhada no nosso campo, podemos observar como as pessoas se subjetivam em relação à trama de poder social que as atravessa, e que lhes confere e retira poder, em relação à intersecção que cada um ocupa nesse jogo entre: classe, raça, gênero, geração, etnia, orientação sexual, entre outros. A abordagem interseccional permite-nos analisar vetores de hegemonia e desigualdade no mesmo sujeito, dados pelas suas pertenças e pelos seus processos de subjetivação que provêm da intersecção particular dos vetores doadores (e subtraidores) de poder anteriormente enumerados, de origem no cenário em que se produzem os processos de singularização. Aqueles que têm trabalhado nessa linha nos propõem que o que torna uma abordagem interseccional é a adoção de uma abordagem de como pensar o problema da igualdade, da diferença e sua relação com o poder. E, além disso, que o que a interseccionalidade produz é mais do que a interseccionalidade é. O que significa que é mais do que a soma das desigualdades, é outra coisa (Belkin, 2020). O mesmo autor sugere a necessidade de ampliar a nossa escuta, examinando as intersecções entre raça, gênero, classe, sexualidade e cultura no consultório. E nos apresenta que muitos estudos sobre gays e lésbicas se concentram no gênero e na sexualidade e minimizam a importância do papel da raça. Ele também aponta que, para muitos gays e lésbicas negros, a própria homossexualidade é vista como uma forma de branquitude. E que essa população, além da homofobia, enfrenta opressão e preconceitos raciais (às vezes nas mãos de gays e lésbicas brancos).Ao mesmo tempo, as investigações sobre raça, etnia e subjetividade deixam de fora questões de sexualidade, especialmente quando é dissidente (Belkin, 2020). Em contrapartida, uma abordagem interseccional permite-nos situar-nos em como esses eixos se constroem mutuamente em práticas historicamente situadas. E permite-nos considerar como eles se constituem em marcadores de identidade histórica e culturalmente contingentes (Collins, 2008), o que nos abre a porta para pensá-los de outra forma do que temos pensado até agora.
Parte do que isso também inclui é identificar como as nossas experiências de privilégio e marginalização se desenvolvem em contextos sociohistóricos específicos. E muitas vezes, como analistas pertencentes a alguns dos coletivos de reivindicação de direitos, como somos nós que trabalhamos como analistas com perspectiva de género, não percebemos como funcionam contra-transferencialmente as nossas próprias coordenadas interseccionais em ressonância com as daqueles que nos consultam (Porchat; Santos, 2021). O que pode levar-nos a supor, por vezes, que aqueles que nos consultam são, de alguma forma, menos racionais ou menos maduros emocionalmente do que nós (Belkin, 2020). Ou como nos acontece ao analisar as masculinidades fundamentalmente a partir da perspectiva da desconstrução da hegemonia. Perdemos as outras dimensões que conferem desigualdade ou poder e que atravessam o mesmo sujeito.
Caso tomarmos como elementos de trabalho a escala de modos de subjetivação masculinos tradicionais, transitórios e inovadores, onde os tradicionais são aqueles ligados a modelos de forte divisão de gênero no trabalho e na vida social e afetiva, com grande assimetria de poder entre homens e mulheres, os transitórios são modelos intermediários em termos de papéis e distribuição de poder e os inovadores são modelos com grandes misturas e mudanças. Não podemos ignorar as misturas de todos esses modelos dentro da mesma psique. E isso nos ajuda a entender de outra forma uma reflexão que me foi apresentada recentemente por uma colega que é alta funcionária de um programa de gênero e saúde. Ela me contava frases que ouvia de homens usuários do sistema de saúde: “Ela já colocou o corpo na gravidez, agora vou colocar o meu, vou fazer uma vasectomia”. E a sua reflexão era: “Estamos a deparar-nos com homens já desconstruídos e atravessados pelas novas práticas das mulheres pós-onda verde e não temos uma conceitualização para os compreender. O conceito de masculinidade hegemônica não nos serve aqui”. Nesse diálogo, por minha vez, levantei a questão da pouca presença, salvo exceções, de políticas de gênero para os homens como homens. Acho que a ideia de políticas de gênero apenas para mulheres e dissidências os deixou de fora. Eles sentem que têm de contribuir para os outros e que não há nada para eles. Freud, em O Desconforto na Cultura, advertia que aqueles que não têm nada não estão dispostos a ceder para o bem cultural. Apenas aqueles que se sentem parte dos benefícios.
Essas e outras reflexões que também ouvi em escolas me fazem pensar que precisamos encontrar outras formas de captar essa nova sensibilidade e posicionamentos subjetivos já abordados pela desconstrução e pelos feminismos, que não podem ser abordados apenas a partir do conceito de desconstrução da hegemonia. Acho que hoje não se pode pensar nas masculinidades sem pensar no impacto que o feminismo (e as mudanças sociais nas relações de gênero) teve sobre elas, são masculinidades intervencionadas. Intervencionadas para o bem e para o mal.
Masculinidades que, pela primeira vez nas suas histórias de vida, o próprio gênero começou a ser visível e tornou-se um problema. Também é preciso pensar no efeito de tantos homens criados sem pais presentes ou com pais falecidos (Escobar et al. 2022), com mães chefes de família, várias vítimas de violência de gênero, que não têm palavras para expressar essa situação porque não foram vítimas de algo em particular, mas foram criados em ambientes complexos, sem terem justificação interna para serem reconhecidos como pessoas traumatizadas. Mas muito provavelmente carregam uma mistura de ressentimento, inveja e culpa que acontece com aqueles que viveram situações injustas, mas que não são necessariamente os mais prejudicados. E que, por sua vez, pertencem genericamente a um coletivo criticado por seus efeitos em suas mães e em sua própria criação. É importante captar estas experiências subjetivas a partir da interseccionalidade de classe, geração e gênero. A incapacidade de se identificar com figuras valiosas portadoras de masculinidade. O que pode gerar formações reativas. Em vez de “abraçar” a diferença, há um desejo de ser como todos. Neste caso: um homem como todos. Ausente, violento ou hegemônico.
Outra vertente é como isso se coloca em jogo no outro extremo da escala social, onde a hegemonia faz um jogo de espelhos e cumplicidades. E nos dispositivos analíticos em que um consultante do sexo masculino assume como naturais os seus privilégios: pacientes brancos atendidos por analistas brancos, pacientes do sexo masculino atendidos por homens, ou pacientes abastados atendidos por analistas economicamente abastados. Ressoando transferencial e contratransferencialmente a partir do “pânico moral”. Nesses contextos, muitas transgressões ou privilégios são vistos como inocentes. O que na minha palestra TED (Tajer, 2019) apontei como “mandar um moco”: pode abranger uma grande variedade de questões que vão do banal ao trágico: esqueci, deixei-a plantada, sem dinheiro, bati nela, atropelei alguém e fugi ou matei alguém porque me deixei levar pela “brincadeira”.
CONCLUSÃO
Para terminar, quero partilhar que tudo o que foi apresentado no mundo adulto representa um desafio na transmissão de modelos de masculinidade valiosos para a infância e a adolescência.
Na nossa sociedade, há um forte questionamento dos emblemas da masculinidade tradicional hegemônica devido aos seus custos para si e para os outros. Mas, ao mesmo tempo, não foram constituídos modelos valiosos de masculinidade não hegemônica para transmitir às novas gerações. E temos que tomar nota de que foram gerações fortemente tocadas pelo feminismo e pela Educação Sexual Integral (ESI) nas escolas. São gerações que vivenciam a democratização dos desconfortos resultantes do fato de as mulheres terem mudado de lugar e já existem propostas que não suportam como as mulheres das gerações anteriores. E creio perceber que ninguém fala com essas gerações de jovens homens, exceto os discursos neoconservadores que propõem um retorno aos lugares tradicionais. Razão a mais para levar muito a sério a necessidade de uma desconstrução coletiva das hegemonias masculinas, que inclua também uma construção e proposta coletiva de masculinidades valiosas não hegemônicas, para que “a mudança” ou as propostas de contar com modelos de masculinidade valiosos não sejam apenas propostas de reconstrução conservadoras, que infelizmente são as únicas que falam aos homens hoje.
Há um silêncio dos homens progressistas que não levaram a sério a construção de modelos valiosos de masculinidade não machista. Felizmente, há colegas que começaram a aceitar esse desafio e considero que é um ótimo começo. Conversar entre si e conversar com os mais jovens. Levar a sério e não apenas defensivamente a interpelação que fazemos, mulheres e dissidências.
NOTAS
[1] Apresentado originalmente no XVI Encontro Internacional Fórum de Psicanálise e Género-APBA. Subjetividades, géneros e vínculos em tempos de restauração conservadora. Avanços e retrocessos, no Painel: Feminilidades, masculinidades e diversidades na clínica psicanalítica e no horizonte social, juntamente com Mabel Burin e Leticia Glocer, com a coordenação de Silvina Marchisio. Apresentado, também, na palestra inaugural de sua residência no Programa Cientista Residente Cesar Lattes – Unicamp em 22/10/2025. [voltar ao texto]
[2] Para esta seção, foram utilizados alguns conceitos da apresentação do livro de Ariel Wainer sobre clínica das caracteropatias por esta autora, devido à semelhança que encontro entre sua descrição da clínica de pacientes com traços de caráter e a clínica das masculinidades em sentido mais amplo. [voltar ao texto]
[3] A sigla LGTTBI+, no original espanhol, equivale à sigla LGBTQIA+, no português brasileiro. [voltar ao texto]
[4] Conceito utilizado pelo autor argentino exilado no Brasil Néstor Perlongher. Um dos pioneiros do que hoje é considerado o campo dos estudos queer. [voltar ao texto]
[5] Conceito cunhado pelo psiquiatra argentino Luis Bonino Méndez, que reside na Espanha. [voltar ao texto]
[6] Também denominado mansplaining. [voltar ao texto]
[7] Gaslight, assim chamado devido ao filme homónimo. [voltar ao texto]
[8] Como evidência de que os jovens do sexo masculino ouviram e acreditaram nessas explicações da extrema direita, basta ver os números globais de quem os jovens do sexo masculino votaram e em quem as jovens do sexo feminino votaram. No segundo turno das eleições de 2023 na Argentina: 69% dos menores de 24 anos votaram em Milei, 44% dos maiores de 45 anos. 51% dos homens e 46% das mulheres. Infelizmente, não encontrei a comparação no momento em que escrevi este artigo. Mas não se trata apenas de um fenômeno local ou “de bairro”, como se diz agora. [voltar ao texto]
[9] O conceito de interseccionalidade foi cunhado em 1989 por Kimberlé Williams Crenshaw, académica e professora feminista norte-americana especializada no campo da teoria crítica da raça. A sua autora define a interseccionalidade como o fenômeno pelo qual cada indivíduo sofre opressão ou ostenta privilégios com base na sua pertença a múltiplas categorias sociais que conferem ou retiram poder. [voltar ao texto]
REFERÊNCIAS
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