O Instituto de Estudos Avançados da Unicamp (IdEA) recebeu mais uma reunião do grupo “Estratégias para o enfrentamento às doenças que afetam populações negligenciadas”, coordenado pelo professor Luiz Carlos Dias (IQ/Unicamp) e pela professora Luiza dos Reis Cruz (Drugs for Neglected Diseases Initiative – DNDi). O encontro concentrou-se em dois grandes desafios: a doença de Chagas e as leishmanioses, destacando aspectos de epidemiologia, diagnóstico, tratamento e os obstáculos que ainda persistem em relação ao controle dessas enfermidades.
No caso da doença de Chagas, foram apresentados dados do Ministério da Saúde sobre notificações agudas e crônicas no Brasil e na América Latina, ressaltando diferenças inter-regionais e a gravidade dos casos transmitidos por via oral, especialmente na região Norte. Foram discutidos programas nacionais e latino-americanos de conscientização, bem como os desafios no tratamento, como a heterogeneidade do parasita, a complexidade das diferentes formas do Trypanosoma cruzi (incluindo DTUs e a forma amastigota dormente) e a toxicidade dos medicamentos baseados na geração de radicais livres. Apesar de estudos pré-clínicos em andamento, ainda não há vacinas disponíveis para a doença, com destaque para pesquisas desenvolvidas na UFMG.
Em relação às leishmanioses, foi ressaltada a complexidade das manifestações clínicas e a diversidade dos parasitas envolvidos. As discussões evidenciaram a dificuldade de obter diagnósticos corretos, muitas vezes comprometidos pela coleta de material, além da importância dos diagnósticos diferenciais para distinguir infecções que causam lesões semelhantes, como a esporotricose. O grupo destacou ainda a escassez de tratamentos específicos, a dificuldade de adesão dos pacientes às terapias disponíveis e a relevância de repensar protocolos com medicamentos reposicionados. Questões foram levantadas à DNDi sobre novos regimes de tratamento em estudo.
O debate também abrangeu os reservatórios animais, apontando tanto cães quanto espécies silvestres como fatores que dificultam o controle da doença. A vacinação em cães, como a Leish-Tec, foi considerada limitada e cara, além de ainda não haver opções para humanos. Houve consenso sobre a necessidade de protocolos mais rigorosos de monitoramento e de estratégias econômicas viáveis, especialmente em regiões mais vulneráveis.
A reunião reforçou a urgência de políticas públicas integradas e interdisciplinares que contemplem não apenas os aspectos clínicos, mas também epidemiológicos, sociais e ambientais das doenças negligenciadas. O IdEA segue atuando como espaço de reflexão e articulação científica, promovendo diálogos capazes de apontar novos caminhos para o enfrentamento desses desafios de saúde pública.
