Na apresentação “Filologia inter scientias”, a profª. Drª Isabella Tardin Cardoso compartilhou, no I Seminário IdEA, um recorte do trabalho desenvolvido pelo grupo Teoria da filologia ao longo do ano: pensar a filologia não apenas como um conjunto de técnicas voltadas a textos antigos, mas como um campo capaz de interrogar, de forma crítica, as premissas que orientam a produção, transmissão, reconstituição, interpretação e ensino de textos do passado, do presente e — em perspectiva — do futuro.
A fala situou a filologia como uma prática intelectual ampla, que envolve desde a edição crítica e a leitura de manuscritos até tradução, comentário, historização e análise de recepções e apropriações em diferentes linguagens e contextos. A partir daí, destacou o foco adotado em 2025: explorar como a teoria da filologia se transforma quando entra em diálogo com outros campos do saber, deslocando a pergunta do “que o texto diz” para “que concepções de texto, ciência, saber e mundo estão em jogo quando lidamos com ele”.
Nesse percurso, o grupo organizou encontros que aproximaram a filologia de quatro frentes: educação, ciências médicas, estudos da psiquê e línguas e culturas indígenas. A apresentação ressaltou experiências em que textos e métodos do mundo clássico foram mobilizados como ponto de partida para mediação de conflitos e construção de convivência em contextos contemporâneos, com ênfase na ideia de que o conhecimento não se valida apenas por uma forma “original”, mas também por sua capacidade de ser reconstituído e reinterpretado de modo situado, culturalmente compreensível e socialmente eficaz. O diálogo com mitologias e narrativas indígenas reforçou ainda mais essa perspectiva, ao evidenciar que narrativas transmitidas pela oralidade podem operar como engrenagens de saber e visão de mundo, exigindo abordagens que considerem produção, circulação, linguagem e vida social como parte do próprio texto.
Ao tratar das interfaces com medicina e psiquê, a apresentação destacou como textos fundadores e conceitos teóricos carregam vocabulários, modelos e disputas de interpretação que atravessam épocas, e como essas heranças podem ser retomadas, tensionadas e também criticadas quando confrontadas com realidades desiguais. Ao final, Isabella defendeu que uma filologia relevante hoje depende desse equilíbrio: rigor na leitura para que o texto não vire mero pretexto, e abertura epistemológica para que o campo não se feche em si mesmo. É nesse movimento que a “filologia do futuro” ganha sentido: não como abandono da tradição, mas como renovação responsável do método, do objeto e das perguntas.
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