O encerramento do ciclo de apresentações I Seminário IdEA trouxe, na fala da Profa. Dra. Telma Vinha e do Prof. Dr. Cesar Nunes, um diagnóstico direto e uma proposta ambiciosa: enfrentar a crise contemporânea da convivência escolar com políticas públicas capazes de operar em escala, com profundidade e sustentabilidade. O trabalho tem conexão com o grupo de estudos Escola e convivência democrática: participação, diversidade e políticas públicas.
Logo no início, Telma situou o tema no contexto mais amplo de aumento da violência na sociedade, que se manifesta nas escolas tanto por ataques quanto por conflitos cotidianos, indisciplina e problemas de convivência. Ela destacou que o trabalho apresentado nasce de uma trajetória longa do grupo de pesquisa (GEPEN), com cerca de 20 anos de pesquisas aplicadas e intervenções em escolas públicas. Ao longo desse percurso, o grupo acumulou resultados relevantes, mas também identificou limites recorrentes: transformações que variam conforme a gestão escolar, baixa sustentabilidade após alguns anos e, sobretudo, pouca articulação entre as políticas das secretarias e o cotidiano das unidades escolares.
Esse balanço, amadurecido em mais de quatro anos de debate interno, levou ao desenho de um novo programa: o “Entre Nós”. A mudança de chave foi clara: sair de “ilhas” de excelência e atuar no nível de rede, considerando que os desafios são sistêmicos e que o impacto, para ser consistente, precisa alcançar a estrutura e a cultura de uma rede inteira.
Telma sintetizou aprendizados que sustentam esse desenho. Primeiro, intervenções em convivência são necessariamente coordenadas e complementares: não basta criar uma ação pontual, porque problemas complexos exigem respostas articuladas. A convivência, segundo ela, opera em diferentes níveis — atenção (quando a violência já está instalada), prevenção, promoção de valores e competências socioemocionais, e acompanhamento das mudanças ao longo do tempo. Também enfatizou que a convivência deve ser responsabilidade compartilhada; quando há um “especialista” único (como um mediador isolado), cresce o risco de terceirização do problema, reduzindo o envolvimento coletivo.
Outro ponto central foi a ideia de que a convivência pode e deve ser planejada de maneira intencional, considerando a escola como comunidade. Para sustentar mudanças, o grupo aprendeu que é preciso atuar em duas frentes ao mesmo tempo: mudança de cultura (hábitos, práticas e rotinas) e ampliação de capacidades (formação, trocas e desenvolvimento de repertório na própria rede). Nesse aspecto, Telma foi categórica ao apontar a insuficiência de soluções muito comuns no Brasil — guias, materiais, cursos massivos, trilhas formativas isoladas — quando o objetivo é produzir mudança cultural e capacidade coletiva em larga escala.
O programa “Entre Nós” surge, então, como um desenho proativo (no sentido de atuar como “vacina”, mirando o longo prazo), com foco em convivência ética e democrática: ética como formação de autonomia, e democrática como aprendizagem da participação, enfrentamento das desigualdades e valorização da diversidade. Um diferencial apresentado foi o compromisso com escala e continuidade: o programa já está sendo implementado em duas capitais, envolvendo mais de 600 escolas de anos finais do ensino fundamental, em convênio com redes municipais de São Paulo e Vitória. A escolha por um convênio de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) foi apresentada como estratégica por garantir maior autonomia, bolsas e flexibilidade típica de inovação social.
Na sequência, Cesar Nunes detalhou a lógica de implementação em rede e como ela conversa com políticas públicas reais, que envolvem hierarquias, responsabilidades e linguagens distintas. Ele argumentou que trabalhar com uma rede inteira exige reconhecer a estrutura da política educacional: secretarias, diretorias regionais e escolas funcionam como “grupos de convivência” diferentes, que se conectam por interfaces. Em vez de um programa “para alguns”, a proposta é construir uma cultura de convivência para todos os atores, do nível central ao chão da escola, respeitando que culturas locais variam e que a mudança precisa acomodar essas diferenças.
A metáfora que organizou sua explicação foi a das “chacoalhadas” — pequenas provocações planejadas que não rompem o sistema, mas o desafiam a se reorganizar e fortalecer, num movimento que remete à noção de antifragilidade. Na prática, isso se traduz em módulos progressivos: começa-se por uma provocação possível (por exemplo, hábitos de comunicação), dá-se tempo para acomodação e, quando a escola reconhece uma transformação concreta, avança-se para o módulo seguinte (como lidar com conflitos cotidianos). O ritmo não é imposto de fora: cada escola segue no seu tempo, e a decisão de avançar é construída coletivamente, em coerência com a própria ideia de convivência democrática.
Cesar também enfatizou que a implementação em escala depende de comunidades de prática. No desenho apresentado, escolas são agrupadas (por exemplo, em blocos de cerca de 20), conectando equipes gestoras (direção, coordenação pedagógica, vice-direção) para troca, “polinização” de soluções e aprendizagem entre contextos. Esse arranjo reduz isolamento, cria circulação de repertórios e dá suporte para que mudanças locais se consolidem com reverberação na rede. Para sustentar esse processo, a equipe utiliza tecnologia como espaço colaborativo de registro e interação, e já começa a empregar inteligência artificial para mapear padrões emergentes em milhares de narrativas produzidas no percurso.
Um ponto conceitual relevante foi a discussão sobre avaliação. Cesar alertou que “convivência” é multidimensional e emergente; tentar medi-la apenas por instrumentos tradicionais pode levar à fragmentação e a uma lógica de controle que perde o fenômeno coletivo. A alternativa defendida é uma avaliação contínua e desenvolvimental, responsiva ao que acontece, capaz de ajustar o programa em tempo real e, ao mesmo tempo, produzir evidências e métricas suficientes para prestação de contas e tomada de decisão em política pública. Esse equilíbrio entre eficácia (metas, resultados) e complexidade (relações humanas, diversidade, incerteza) aparece como uma tensão permanente que o programa tenta sustentar com método.
Nas perguntas, o debate reforçou conexões com experiências internacionais (como projetos de mediação na Colômbia) e destacou o caminho institucional que viabilizou a implementação em grandes redes: a escalada de violência e ataques escolares criou uma janela de urgência, mas o que permitiu a parceria foi a existência de um programa desenhado com antecedência, a credibilidade científica da Unicamp e um longo processo de construção conjunta do convênio, com escuta, visitas, análises e adaptação às culturas e estruturas existentes nas redes.
Ao final, a conversa retornou ao ponto de partida: convivência como tema transversal que atravessou diferentes mesas do dia. A apresentação mostrou que, diante da complexidade, o desafio não é apenas propor ações, mas construir capacidade pública para sustentar mudanças ao longo do tempo, em escala e com sentido para quem vive a escola. “Entre Nós” aparece, nesse quadro, como uma aposta metodológica e política: fazer da convivência um projeto de rede, um processo formativo e uma cultura compartilhada, capaz de enfrentar violência, desigualdades e rupturas sem reduzir a educação a respostas reativas e de curto prazo.
Confira a apresentação completa pelo YouTube.
